Filosofia de Ponto de Ônibus #2
Dona Carmem tem 72 anos, um joelho ruim e uma sabedoria que nenhuma universidade ensina.
Dona Carmem tem 72 anos, um joelho ruim e uma sabedoria que nenhuma universidade ensina. Está no ponto do ônibus todas as manhãs, às 8h15, com uma bolsa de feira e uma paciência geológica. Enquanto todos ao redor olham o celular, bufam, reclamam do atraso e correm quando o ônibus aparece, Dona Carmem espera. Simplesmente espera. Como se o ônibus fosse o problema mais fácil do dia — e provavelmente é.
A filosofia de quem não tem pressa
"Meu filho, eu já esperei marido, esperei filho nascer, esperei resultado de exame, esperei governo mudar. Ônibus é o mais rápido que aparece." A frase de Dona Carmem tem a clareza de um aforismo grego — e a profundidade de quem viveu 72 anos sem perder tempo com teoria.
Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano que escreve sobre a "sociedade do cansaço", argumenta que perdemos a capacidade de contemplação — estamos tão acelerados que confundimos produtividade com existência. Dona Carmem nunca leu Byung-Chul Han, mas pratica sua filosofia todos os dias: existe sem pressa, observa sem urgência, espera sem angústia.
"A diferença entre Dona Carmem e o executivo no ponto é que ela sabe o que Heidegger levou 500 páginas para dizer: o tempo não é seu. Nunca foi."
O que Dona Carmem vê (e ninguém mais vê)
Enquanto os outros olham o celular, Dona Carmem olha a rua. Vê o menino que vende bala e está crescendo ("já tá quase da minha altura"). Vê a mulher de vermelho que passa todo dia no mesmo horário ("essa aí trabalha longe"). Vê o cachorro sem dono que dorme embaixo do banco ("coitado, ontem tava chovendo"). Vê, em suma, a vida — essa coisa que acontece enquanto todo mundo está ocupado demais para perceber.
A atenção de Dona Carmem é o oposto da atenção digital: é lenta, ampla, não direcionada. Não busca informação — recebe o que vier. É o que os contemplativos chamam de "atenção aberta" e que a neurociência associa à rede de modo padrão (default mode network) do cérebro — o estado em que surgem insights, criatividade e, não por acaso, os pensamentos mais honestos sobre nós mesmos.
A lição que cabe no banco do ponto
Dona Carmem não é filósofa. É aposentada, viúva, avó de cinco. Nunca escreveu um livro, nunca deu palestra, nunca apareceu em TED Talk. Mas sabe uma coisa que o resto do ponto não sabe: a vida não está no destino — está na espera. No intervalo. No que acontece entre sair de casa e chegar ao mercado.
O ônibus chegou. Dona Carmem levantou devagar, com o joelho protestando. Entrou pela porta de trás, mostrou o cartão, sentou no banco reservado. O executivo ao lado digitava freneticamente no celular. Dona Carmem olhou pela janela e sorriu — de quê, só ela sabe.
Talvez do ônibus. Talvez da manhã. Talvez de nós, que corremos tanto que esquecemos para onde estávamos indo.