Ebola, uma epidemia dentro de outra
Análise · Dra. Camila Torres Há epidemias que se medem em números e outras que se medem em décadas.
Análise · Dra. Camila Torres
Há epidemias que se medem em números e outras que se medem em décadas. A atual crise de ebola na República Democrática do Congo pertence a ambas as categorias. Os dados mais recentes, divulgados pelo governo congolês, são um alarme epidemiológico clássico: mais de mil novas infecções em apenas dez dias, elevando o total a 3.200 casos e 1.405 mortes. A letalidade de 43,9% é, por si só, uma tragédia. Mas o ritmo de contágio é o que mais assusta. Sugere uma perda de controle nas linhas de frente.
O vírus, sabemos, não age no vácuo. Ele explora as fraturas de uma sociedade. O epicentro do surto está nas províncias do leste do país, uma região onde o conflito armado é crônico há mais de trinta anos. Uma infraestrutura de saúde que opera sob a lógica da emergência permanente não consegue montar a vigilância sistemática que o ebola exige. Rastrear contatos, uma das ferramentas mais eficazes da saúde pública, alcança 77,8% dos casos. O número parece alto, mas em uma doença com esta virulência, os 22,2% restantes representam uma brecha por onde o vírus continua a se disseminar, invisível e veloz.
A crise atual é causada pelo vírus Bundibugyo, uma variante para a qual ainda não existem vacinas ou tratamentos específicos aprovados. Enquanto a epidemia mais letal da história do país, entre 2018 e 2020, foi causada por outra cepa, a ciência corre para preencher essa lacuna. Um estudo clínico iniciado na Universidade de Oxford testa uma vacina experimental, a ChAdOx1 BDBV, que utiliza a mesma tecnologia vetorial da vacina desenvolvida pela AstraZeneca contra a covid-19. É um esforço promissor, mas que não trará alívio imediato para os 773 pacientes hoje em isolamento.
A contenção bem-sucedida do surto vizinho em Uganda, que após 20 infecções declarou o último paciente recuperado, mostra que o protocolo funciona. A condição, no entanto, é a estabilidade. Sem paz, a saúde pública é um exercício de improviso heroico, mas insuficiente. Cada enterro, como o da pequena Vanisa Anifa, de seis meses, é um ponto de potencial contágio e um lembrete de que a guerra e a doença se alimentam mutuamente. Os números que chegam do Congo não narram apenas uma emergência sanitária. Contam a história de um vírus que encontrou seu terreno ideal em uma crise humanitária que o mundo se habituou a ignorar.
Dra. Camila Torres — Saúde — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Congo tem 3.200 casos de ebola com 1.405 mortes
Fontes: g1 · Folha de S.Paulo
Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.