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Déficit em junho: um descompasso entre receita e despesa

Análise · Ricardo Mendes O resultado primário do Governo Central em junho, um déficit de R$ 48,2 bilhões, não é um dado que surpreenda pela direção…

Déficit em junho: um descompasso entre receita e despesa
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Análise · Ricardo Mendes

O resultado primário do Governo Central em junho, um déficit de R$ 48,2 bilhões, não é um dado que surpreenda pela direção, mas pela magnitude. O número representa o maior saldo negativo para o mês desde 2023, em valores corrigidos pela inflação, e supera o já expressivo déficit de R$ 44,2 bilhões de junho de 2025. É a fotografia de uma dinâmica fiscal onde o crescimento das despesas supera, consistentemente, o esforço de arrecadação.

O resultado primário — a diferença entre o que o governo arrecada e o que gasta, antes do pagamento dos juros da dívida — é o termômetro mais direto da capacidade do Estado de equilibrar suas contas. No acumulado dos últimos 12 meses, esse indicador aponta um déficit de R$ 144,1 bilhões, ou 1,08% do Produto Interno Bruto (PIB). É um patamar que sinaliza uma pressão contínua sobre o endividamento público, mesmo em um cenário de atividade econômica que favorece a coleta de impostos.

A complexidade do quadro fiscal se revela quando se decompõe o resultado. De um lado, há um desempenho notável da receita. Em junho, a arrecadação líquida somou R$ 195,2 bilhões, uma alta real de 10,3% sobre o mesmo mês do ano anterior. No semestre, a expansão real foi de 5,6%. Esses números indicam que a máquina arrecadatória responde positivamente, mas seu vigor não tem sido suficiente para cobrir a outra ponta da equação.

Do outro lado, as despesas totais avançaram 9% em termos reais em junho e 12,3% no acumulado do primeiro semestre. Este descompasso entre o ritmo de crescimento dos gastos e o das receitas é o núcleo do problema. A Previdência Social permanece como o principal fator de pressão, mas não é o único. O aumento dos investimentos federais em 18% no mês, embora positivo para a infraestrutura, adiciona peso ao dispêndio total. A queda nos dividendos pagos por estatais no semestre — R$ 10,47 bilhões contra R$ 24,95 bilhões no mesmo período de 2025 — também subtrai recursos que poderiam aliviar a conta.

No fechamento do primeiro semestre, o déficit acumulado de R$ 92,2 bilhões contrasta agudamente com o saldo negativo de R$ 11,3 bilhões dos primeiros seis meses de 2025. O desafio posto não é de queda na arrecadação, mas de controle sobre a velocidade de expansão do gasto. Sem uma convergência entre as duas trajetórias, a estabilização da dívida pública permanece como um objetivo distante.

Ricardo Mendes

Ricardo Mendes — Economia — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Déficit do Governo Central atinge R$ 48,2 bilhões em junho

Fonte: Agência Brasil