Danilo no lugar de Paquetá: a sugestão que vem da memória
Análise · Marcos Tibúrcio Kléberson não é um qualquer.
Análise · Marcos Tibúrcio
Kléberson não é um qualquer. Quem diz isso não é o sobrenome nem a medalha — é o que ele fez no Japão, em 2002, num torneio em que o Brasil ganhou a Copa jogando com um volante de marcação no lugar onde qualquer outro treinador colocaria um meia de criação. Romário ficou em casa. Ronaldinho saiu do banco. E a taça veio. Por isso, quando Kléberson abre a boca sobre substituição de função numa Copa do Mundo, vale parar e ouvir o que ele está dizendo — e o que está deixando de dizer.
A ausência de Lucas Paquetá não é um detalhe de escalação. É uma ruptura de identidade. Paquetá é o jogador que o Brasil construiu, nos últimos anos, como eixo da transição entre o que se destrói e o que se cria. Ele não é o dez clássico, não é o oito de corrida — é o híbrido que a seleção de Dorival aprendeu a depender sem perceber que dependia. Tirar Paquetá não é mudar uma peça. É mudar a gramática do jogo.
Kléberson sugere Danilo. A escolha tem lógica de arquibancada, não de lousa tática — e isso, aqui, é elogio. Danilo conhece Copa. Conhece pressão. Conhece o peso de uma camisa que às vezes aperta mais do que veste. É um jogador que passou pela Europa sem se perder, que entende espaço e posicionamento com uma maturidade que não se improvisa. O argumento de Kléberson não é técnico no sentido frio do termo: é um argumento sobre caráter competitivo, sobre quem aguenta o torneio quando o torneio resolve apertar.
A comparação com 2002 é sedutora — e perigosa. Naquele ano, o Brasil perdeu peças e ganhou a Copa, e isso virou uma espécie de mito fundador da improvisação virtuosa. Mas 2002 não se repete por decreto. Repete-se, talvez, por temperamento.
O que Kléberson está dizendo, no fundo, é que acredita nesse temperamento. Que a seleção tem em Danilo um jogador capaz de ocupar uma função maior do que a que exercia — não porque seja igual a Paquetá, mas porque, em Copa, a questão raramente é igualdade. A questão é quem cresce quando o contexto exige crescimento.
O risco real não está na escolha de nome. Está na tentação de resolver o problema de Paquetá com um único nome, como se a função fosse um cargo e não uma teia de movimentos que outros jogadores também precisarão cobrir. Danilo pode ser parte da resposta. Mas a resposta completa exige que o Brasil mude, ao menos um pouco, a forma como pensa o meio-campo — e isso é uma conversa que Dorival precisará ter consigo mesmo antes de ter com qualquer jogador.
Kléberson viveu isso de dentro. Por isso sua sugestão merece respeito. Mas 2002 não foi um roteiro. Foi um acidente glorioso que um grupo de homens extraordinários soube transformar em destino.
— Marcos Tibúrcio, EsporteMarcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge