Crônica — O Sofá e a Civilização
Bica. — Crônica O sofá era bege.
O sofá era bege. Ou tinha sido bege — naquele ponto da existência, era mais uma memória de bege, uma sugestão de cor que sobrevivera a três gatos, dois filhos, um divórcio e uma enchente (não necessariamente nessa ordem de destruição). Mas era o sofá. O sofá da família. O sofá no qual gerações inteiras tinham sentado, deitado, dormido, discutido, se reconciliado, assistido à novela e, em pelo menos uma ocasião documentada, nascido (o terceiro filho, que chegou rápido demais para o hospital e devagar demais para o decoro).
A Marilda queria jogar fora. "Isso é um lixo", disse, com a autoridade de quem tinha lido um artigo sobre minimalismo no Instagram. O Ademir queria manter. "Isso é patrimônio", disse, com a autoridade de quem não leu nada mas sentia muito. O impasse durou três semanas — mais que o casamento da vizinha do 302, mas menos que a reforma do banheiro (essa, sim, eterna).
O sofá, claro, não se manifestou. Sofás não falam. Mas se falasse, diria o que todo móvel velho sabe: que a civilização não se mede por suas catedrais, mas pelos lugares onde as pessoas sentam. Que o Coliseu é impressionante, mas ninguém criou os filhos lá. Que a Torre Eiffel brilha, mas ninguém chorou uma separação olhando para ela — não de verdade, não com o rosto no tecido, não com a dignidade de quem sabe que ninguém está vendo.
"O sofá da sala é o monumento mais subestimado da civilização. Nele se vive mais do que em qualquer praça, qualquer monumento, qualquer capital do mundo."
A solução veio do menino mais novo — aquele que nasceu nele. "Mãe, se a gente jogar fora, onde o pai vai dormir quando vocês brigarem?" O argumento era irrefutável. Marilda olhou para Ademir. Ademir olhou para o sofá. O sofá, em sua sabedoria bege, não disse nada.
Ficou.
E aquela noite mesmo, quando Marilda e Ademir brigaram por causa do controle remoto (ele queria futebol, ela queria série, os dois queriam ter razão), Ademir dormiu no sofá. E sonhou com a casa inteira — a casa como era antes, como seria depois, como é agora. A casa que só o sofá conhece por inteiro, porque só o sofá esteve lá em todos os momentos.
No dia seguinte, Marilda sentou ao lado dele no café. "O sofá fica." Pausa. "Mas a gente troca a capa." Compromisso: a fundação de toda civilização que dura.