SUS oferecerá canetas emagrecedoras em três estados
Goiás, Rio de Janeiro e Distrito Federal já implementam medicamentos injetáveis para emagrecimento no SUS.
Análise · Dra. Camila Torres
Goiás, Rio de Janeiro e o Distrito Federal não esperaram o Ministério da Saúde. Incorporaram por conta própria os agonistas de GLP-1 — semaglutida e liraglutida, os princípios ativos por trás das chamadas "canetas emagrecedoras" — às suas redes públicas. O movimento é politicamente compreensível. É clinicamente justificável. E, ao mesmo tempo, abre uma questão que o entusiasmo tende a engolir: incorporar para quem, com qual critério e a que custo de oportunidade?
A pergunta não é retórica. Agonistas de GLP-1 têm respaldo científico sólido para obesidade grau II com comorbidades e para diabetes tipo 2. O estudo LEADER, publicado no New England Journal of Medicine em 2016 por Marso e colaboradores, demonstrou redução de eventos cardiovasculares maiores com liraglutida em população diabética de alto risco. O SELECT, divulgado em 2023 na mesma revista por Ryan e colaboradores, apontou redução de 20% em eventos cardiovasculares com semaglutida em pacientes obesos sem diabetes. São ensaios robustos, com amostras de dezenas de milhares de participantes. A evidência clínica existe e não é frágil.
O problema nunca foi a eficácia. Foi — e continua sendo — a escala. O SUS atende mais de 150 milhões de pessoas. A obesidade atinge cerca de um quarto da população adulta brasileira, segundo dados da Vigitel. Universalizar esses medicamentos sem critério de priorização clínica rigoroso não é política de saúde; é promessa sem lastro. E prometer no SUS tem consequências diretas: cada real alocado para semaglutida é um real que não vai para insulina humana NPH, para anti-hipertensivos de primeira linha, para o tratamento de tuberculose que o Brasil ainda não erradicou.
A decisão dos estados antecipa o debate que o Ministério agora tenta ordenar. Mas antecipar sem protocolo é diferente de inovar com responsabilidade.
A nova análise anunciada pelo Ministério é o caminho correto — desde que não seja apenas ritual burocrático antes de uma decisão já tomada por pressão de demanda. A Conitec, comissão responsável pela incorporação de tecnologias no SUS, precisará definir com clareza qual perfil de paciente se beneficia a ponto de justificar o custo, quais são os critérios de entrada e saída do tratamento e como será feita a monitorização de resultados. Sem isso, a expansão será desigual dentro da própria rede pública — favorecendo quem tem mais acesso à informação e capacidade de navegar no sistema, não necessariamente quem tem maior risco clínico.
Há ainda uma dimensão que raramente aparece nas manchetes: a dependência de tratamento. Estudos de seguimento mostram que parte relevante do peso perdido retorna após a suspensão dos medicamentos. Se o SUS incorpora sem garantir continuidade de fornecimento — algo que a história do Componente Especializado da Assistência Farmacêutica ensina a não subestimar —, cria-se um ciclo cruel de início e interrupção que piora a relação do paciente com seu próprio corpo e com o sistema.
Estados que chegaram primeiro merecem reconhecimento pela ousadia. Merecem, igualmente, a cobrança por protocolos que transformem ousadia em política sustentável. O Ministério tem agora a oportunidade — e a obrigação — de fazer isso com método.
Dra. Camila Torres — Saúde — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Goiás, Rio e DF adotam canetas emagrecedoras no sistema de saúde
Fontes: Folha de S.Paulo · UOL
Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.