Café frio na madrugada de segunda
Crônica · Heitor Graça O primeiro gole de café da segunda-feira, aquele que a gente toma ainda meio sonhando, desceu frio.
Crônica · Heitor Graça
O primeiro gole de café da segunda-feira, aquele que a gente toma ainda meio sonhando, desceu frio. Não por culpa da cafeteira, que fez seu trabalho com o barulho de sempre, mas porque a notícia chegou antes, pelo rádio da cozinha. Uma nota curta, voz de locutor apressado, falando de um lugar que daqui da janela do meu apartamento em Copacabana parece outro planeta. Vigário Geral, Parada de Lucas.
Fiquei olhando para a xícara. O rádio continuou, mencionou o BOPE, o número de agentes, duzentos homens, e o fechamento de vias que são as artérias desta cidade: Avenida Brasil, Linha Vermelha. Imaginei os ônibus parados, os motoristas com os braços para fora da janela, o sol começando a esquentar o asfalto e a paciência de quem só queria chegar ao trabalho. Um engarrafamento que começa na Zona Norte, a gente sabe, pode muito bem fazer o pão de um sujeito na Gávea chegar mais tarde.
Não se ouve o tiroteio daqui, claro. O que se ouve é o mar, a porta do elevador, o bom-dia do vizinho que passeia com o cachorro. Mas o Rio tem dessas coisas. A cidade é uma só, e o sangue que pulsa nela é o mesmo, mesmo que a gente finja que não. Uma artéria fechada lá longe provoca uma arritmia em todo o corpo. O porteiro pode atrasar. A moça da padaria, também.
Não entendo de tática, nem de estratégia. Talvez nem seja meu papel. Meu ofício é olhar para o café que esfriou na xícara e pensar em quantas outras cozinhas, mais perto do barulho, nem sequer tiveram a chance de passar um café. A normalidade de uma segunda-feira é um luxo que a geografia desta cidade distribui de forma desigual.
Lá fora, um dia azul começa a se impor. Da minha varanda, o Rio continua lindo. É só uma questão de saber para onde se está olhando.
Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.
Leia o factual: BOPE faz operação em Vigário Geral e Parada de Lucas no Rio
Fontes: g1 · Folha de S.Paulo