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O disco que o Brasil precisa ouvir agora (e provavelmente não vai)

CRÍTICA por Arnaldo Duval Existe um tipo de disco que não aparece nas playlists algorítmicas, não ganha TikTok, não vira trend.

CRÍTICA

por Arnaldo Duval

Existe um tipo de disco que não aparece nas playlists algorítmicas, não ganha TikTok, não vira trend. É o disco que exige atenção. Que precisa ser ouvido do começo ao fim, na ordem, sem pular faixa. O disco que trata o ouvinte como adulto.

O Brasil de 2026 não sabe mais ouvir discos assim. Somos um país de singles, de 30 segundos de refrão, de playlists que um algoritmo montou para não nos incomodar. A música brasileira — que um dia foi a mais sofisticada do planeta — está sendo consumida como fast food.

Não é culpa do público. É culpa de quem desistiu de desafiá-lo.

O problema

Quando Tom Jobim compôs "Águas de Março", usou harmonias que um estudante de jazz levaria anos para decifrar. Quando Chico Buarque escreveu "Construção", usou proparoxítonas em cada verso final — um tour de force linguístico disfarçado de canção popular. Quando os Mutantes distorceram guitarras em 1968, estavam fazendo o que o Radiohead faria 30 anos depois.

Essa tradição — de música popular que é ao mesmo tempo sofisticada e acessível — está em risco. Não porque faltam músicos talentosos. Mas porque o ecossistema que sustentava a ambição artística (gravadoras que bancavam discos "difíceis", rádios que tocavam músicas de 6 minutos, público que comprava álbuns) desapareceu.

A saída

A saída não é nostálgica. Não é voltar ao vinil por fetiche. É criar novos espaços para música que exige atenção. Revistas que escrevem sobre música como se fosse literatura. Playlists curadas por humanos com gosto e opinião. Crítica que não é press release disfarçado.

É por isso que Lado B. existe. Porque alguém precisa dizer que o rei está nu — e que o disco do ano não é o que mais tocou, mas o que mais mereceu ser ouvido.

Discos para ouvir inteiros este mês:

  • Clube da Esquina — Milton Nascimento & Lô Borges (1972)
  • Acabou Chorare — Novos Baianos (1972)
  • Elis & Tom — Elis Regina & Tom Jobim (1974)
  • Selvagem? — Os Paralamas do Sucesso (1986)
  • Da Lama ao Caos — Chico Science & Nação Zumbi (1994)

Arnaldo Duval é crítico musical de Lado B. na Xaplin.