Ancelotti e o sim que vale uma Copa inteira
Análise · Marcos Tibúrcio O telefone tocou para Carlo Ancelotti no Canadá, onde se descansa do futebol.
Análise · Marcos Tibúrcio
O telefone tocou para Carlo Ancelotti no Canadá, onde se descansa do futebol. Do outro lado da linha, não era um clube qualquer, um xeique entediado ou um novo-rico americano. Era a Itália. A pátria, a camisa azul, o hino que ele cantou como jogador. O chamado vinha assinado por Paolo Maldini, um nome que, para Ancelotti, é o eco de uma vida inteira de batalhas no San Siro. Era a chance de voltar para casa, de curar uma ferida que o futebol italiano carrega desde que o mundo descobriu que pode haver Copa do Mundo sem a Azzurra.
O convite chegou no momento preciso da dúvida, poucos dias depois da eliminação do Brasil. Não uma eliminação qualquer, dessas trágicas, nos pênaltis, contra uma potência. Uma derrota seca, dura, para a Noruega. O tipo de resultado que esfarela certezas e convida ao abandono do barco. A seleção, mais uma vez, saía de um Mundial pela porta dos fundos, com a torcida no aeroporto perguntando não "por quê?", mas "até quando?". Era o cenário perfeito para uma despedida elegante, com a desculpa nobre do chamado da terra natal.
Mas Ancelotti disse não. E é nesse “não” a Maldini que reside o verdadeiro começo de seu ciclo na seleção brasileira. A assinatura do contrato, a apresentação com o terno da CBF, os primeiros treinos — tudo isso é protocolo. A hora da verdade é quando a primeira tempestade chega e o porto seguro acena. Ancelotti viu o aceno e escolheu ficar na borrasca.
Não há romantismo ingênuo na decisão. Um homem com a sua história não se move por sentimentalismo barato. O que há é a reafirmação de um compromisso, uma espécie de fio de bigode transatlântico que vale mais do que a multa rescisória que os italianos estavam dispostos a consultar. Ao dispensar o chamado de casa, o técnico italiano informa ao jogador brasileiro, tão acostumado à dança das cadeiras e aos projetos de seis meses, que desta vez o plano é mais longo que o próximo amistoso.
Para a arquibancada, que ainda lambe as feridas da eliminação e olha com desconfiança secular para qualquer um que não tenha nascido em berço esplêndido, a notícia chega como um alento. Não é uma garantia de título. O futebol não lida com garantias. Mas é um sinal de que, pela primeira vez em muito tempo, o homem no comando vê a camisa amarela não como um degrau na carreira ou um emprego de ocasião, mas como o projeto principal. Depois de um junho de interrogações, o "fico" de Ancelotti é a primeira resposta que o torcedor precisava ouvir.
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge