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Ancelotti e o silêncio que também é mensagem

Análise · Marcos Tibúrcio Há treinadores que falam com a escalação. Ancelotti fala com o mistério.

Ancelotti e o silêncio que também é mensagem

Análise · Marcos Tibúrcio

Há treinadores que falam com a escalação. Ancelotti fala com o mistério. A sessão desta segunda-feira em Nova Jersey terminou sem nome, sem posição definida, sem a certeza que a imprensa pediu e a torcida esperava. O substituto de Raphinha contra a Escócia ficou para a terça — e esse adiamento, deliberado como quase tudo que o italiano faz, diz mais sobre o momento da seleção do que qualquer coletiva.

O fato em si é simples: Raphinha não joga, e alguém vai ocupar o flanco direito do ataque brasileiro na segunda rodada da fase de grupos. Mas o que Ancelotti está testando não é apenas um nome — é uma ideia. Quem entra ali carrega consigo uma função, um ritmo, uma forma de interpretar o espaço que Raphinha costuma habitar com uma intensidade quase irritante. Substituir esse tipo de jogador não é trocar uma peça; é reescrever um trecho da partitura.

A Escócia não é adversária para descaso. Nenhuma seleção que chegou a uma Copa do Mundo é. Os escoceses têm história nesse torneio — história de tragédias bonitas, de eliminações que viraram folclore, de um futebol que nunca foi elegante e nunca precisou ser. Jogar contra eles exige disposição para o confronto físico, para a marcação que aperta, para o jogo que às vezes parece mais batalha medieval do que esporte moderno. Quem Ancelotti escalar no lugar de Raphinha vai sentir isso no primeiro lance.

O mistério de Ancelotti não é vaidade — é método. Ele sabe que o adversário também lê jornal.

Há uma lógica velha no futebol de alto nível: a escalação que vaza na véspera é a escalação que o adversário já estudou. Ancelotti passou por Real Madrid, Bayern, Milan, PSG — aprendeu que a informação é parte do jogo antes do apito. Deixar Nova Jersey sem resposta não é falta de definição. É, na maioria das vezes, definição protegida.

O que torna o momento interessante — e um pouco tenso, se formos honestos — é que essa Copa ainda não mostrou qual é o Brasil de Ancelotti. A seleção chegou ao torneio carregando expectativa histórica e um treinador que nunca dirigiu seleção antes. A combinação é sedutora e arriscada ao mesmo tempo. Cada escolha sua, cada teste numa segunda à tarde em Nova Jersey, é também uma resposta parcial a uma pergunta maior: ele entende o que é dirigir o Brasil numa Copa do Mundo?

A resposta completa vem terça-feira, com o time em campo. Mas o comportamento desta segunda já é dado. Ancelotti não se apressou, não cedeu à pressão da especulação, não improvisou para parecer decidido. Esperou. E na espera há uma postura — a de quem já ganhou o suficiente para saber que pressa, nesse jogo, é o primeiro erro.

O substituto de Raphinha vai aparecer. O Brasil vai a campo. E aí a arquibancada, que não lê relatório técnico nem entende de periodização, vai julgar pelo único critério que sempre importou: o que aconteceu dentro das quatro linhas.

Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Ancelotti testa opções para substituir Raphinha contra a Escócia

Fonte: ge