Lateral experiente se destaca na Copa do Mundo
Análise de como jogadores veteranos lidam com a pressão e as exigências da competição internacional de futebol.
Análise · Marcos Tibúrcio
Há uma certa crueldade silenciosa na Copa do Mundo. Ela não bate de frente. Ela espera. Espera o craque chegar aos 40, aos 38, com os joelhos de outro milênio e a reputação de três décadas, e então pergunta, com a frieza de quem cronometra tudo: você ainda tem alguma coisa a dizer?
A pergunta está posta sobre Cristiano Ronaldo e Neymar neste torneio. Portugal empatou com a RD Congo na estreia e já há quem calibre o fuzil. Ronaldo treina com a intensidade de sempre — o que, na sua mitologia pessoal, é um argumento em si mesmo. Mas o gol não saiu. O jogo não convenceu. E a Copa não tem paciência com símbolos que não marquem.
É nesse clima que um lateral de Portugal tomou a palavra. Não o técnico, não o capitão. Um lateral. E disse o que disse: Ronaldo e Neymar não precisam provar nada a ninguém.
A frase é generosa. É também, se você ouvir com atenção, levemente desesperada. Porque ninguém sai na defesa de quem está bem. Ninguém convoca a imprensa para lembrar que o sol nasce a leste. A defesa pública de um craque, num grupo de Copa, antes do segundo jogo, é o sinal de que a tensão já atravessou o vestiário.
O lateral não está errado, note-se. Ronaldo construiu uma carreira que dispensa qualquer tribunal desta Copa. Neymar também carrega um currículo que a maioria dos jogadores vivos não ousaria sonhar. Nesse sentido estrito, a declaração é verdadeira.
Mas a Copa do Mundo não é um museu. Não é o lugar onde se venera o que foi feito. É o lugar onde se cobra o que ainda pode ser feito — agora, neste campo, diante desta zaga, com este árbitro e este calor.
Portugal enfrenta o Uzbequistão nesta quarta-feira. É o tipo de jogo que precisa ser resolvido com autoridade, com um Ronaldo que não apenas treine com intensidade, mas que apareça no momento em que o jogo pede. A RD Congo ficou no empate. O Uzbequistão não é a RD Congo, mas também não é Espanha. O grupo perdoa até certo ponto.
A ironia toda é que Ronaldo, mais do que ninguém, sabe disso. A sua própria lenda foi construída à base de calar bocas — com gol, com título, com jogo. Ele não precisa que um lateral explique sua grandeza. Ele precisa que a bola entre.
O que o lateral disse é o tipo de coisa bonita de se ouvir numa tarde de treino. O que a Copa vai exigir é diferente. Ela vai exigir resposta no campo. E Portugal, que ainda não venceu nesta Copa do Mundo, precisa que o seu maior nome seja mais do que uma sombra ilustre na área adversária.
A grandeza do passado não marca gol. Nunca marcou.
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge