Além da manchete do desemprego a 5,4%
Análise · Ricardo Mendes A taxa de desemprego de 5,4% no segundo trimestre é, sem dúvida, um número a ser notado.
Análise · Ricardo Mendes
A taxa de desemprego de 5,4% no segundo trimestre é, sem dúvida, um número a ser notado. Representa o menor patamar para o período desde o início da série histórica da Pnad Contínua, em 2012, e uma melhora sequencial sobre os 6,1% do primeiro trimestre e os 5,8% de um ano atrás. O número de pessoas ocupadas ultrapassou a marca de 103 milhões, com a criação de mais de um milhão de postos de trabalho em apenas três meses. É o tipo de resultado que, isolado, compõe uma narrativa de robustez econômica inequívoca.
Uma análise mais detida dos componentes, no entanto, sugere um quadro com mais texturas. A qualidade da ocupação e a origem dos novos postos são variáveis tão ou mais importantes que a taxa de desocupação em si. E aqui, a composição da expansão merece escrutínio.
Dos novos postos de trabalho gerados, quase 70% vieram de dois grandes grupamentos: “Transporte, armazenagem e correio”, com 235 mil novas pessoas ocupadas, e o setor de “Administração pública, defesa, seguridade social, educação, saúde humana e serviços sociais”, que adicionou 489 mil pessoas. O primeiro é frequentemente associado a ocupações de logística e entrega, muitas vezes marcadas por relações de trabalho mais flexíveis. O segundo, um agregado amplo, é majoritariamente influenciado por contratações do setor público, que operam sob uma lógica distinta da atividade econômica privada.
Enquanto isso, a taxa de informalidade — a proporção de trabalhadores sem os direitos e proteções da CLT — permanece em 37,4%. São mais de um terço da população ocupada em situação de vulnerabilidade, sem acesso a seguro-desemprego, férias ou décimo terceiro salário. Este patamar estrutural de informalidade limita o impacto que a queda do desemprego poderia ter na segurança financeira das famílias.
O rendimento médio real, por sua vez, registrou uma leve queda em relação ao trimestre anterior, passando de R$ 3.765 para R$ 3.738. Embora seja o maior valor para um segundo trimestre, a variação negativa na margem indica que a maior ocupação não se traduz, por ora, em maior poder de compra médio. A queda na desocupação é uma condição necessária, mas não suficiente, para a melhora sustentada do bem-estar. A qualidade dos empregos e a trajetória da renda real são o que, no fim do dia, definem o sucesso de um ciclo de expansão.
Ricardo Mendes
Ricardo Mendes — Economia — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Desemprego cai para 5,4% no 2º trimestre, menor taxa no período
Fonte: Agência Brasil
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