Abaixo da superfície dos 5,4%
Análise · Ricardo Mendes A taxa de desocupação de 5,4% no trimestre encerrado em junho é, em seu valor de face, um número a celebrar.
Análise · Ricardo Mendes
A taxa de desocupação de 5,4% no trimestre encerrado em junho é, em seu valor de face, um número a celebrar. Representa o menor patamar para o período desde o início da série histórica da PNAD Contínua, em 2012. O recuo é consistente tanto na comparação com o trimestre imediatamente anterior (6,1%) quanto com o mesmo período de 2025 (5,8%). A população ocupada expandiu-se em mais de um milhão de pessoas. O número absoluto de desempregados, 5,9 milhões, é expressivo, mas segue uma trajetória descendente. A fotografia é positiva.
Uma análise da composição do filme, contudo, revela uma dinâmica que exige atenção. A melhora do indicador não se distribui de maneira homogênea pela estrutura do mercado de trabalho. A criação de postos de trabalho foi impulsionada, segundo a própria nota do IBGE, principalmente pelo aumento de empregados no setor privado sem carteira assinada. Este grupo cresceu 2,2% no período, enquanto o contingente de trabalhadores com carteira assinada avançou um mais modesto 0,6%.
Qualidade da ocupação em debate
Não se trata de invalidar o dado principal — há, de fato, mais pessoas trabalhando. A questão que se impõe é sobre a qualidade e a resiliência dessa ocupação. O emprego formal, com carteira assinada, tende a oferecer maior estabilidade de renda, acesso a crédito e direitos trabalhistas que funcionam como uma rede de proteção social. Sua expansão mais lenta em relação à informalidade sugere que a recuperação da atividade econômica pode estar se apoiando em bases mais frágeis e voláteis.
Outro indicador relevante corrobora essa leitura. A taxa composta de subutilização da força de trabalho — que inclui os desocupados, os subocupados por insuficiência de horas e a força de trabalho potencial — recuou para 12,9%. A queda é significativa, mas o patamar revela que 14,7 milhões de brasileiros ainda gostariam de trabalhar mais do que conseguem. É um contingente que, embora menor, representa uma capacidade produtiva ociosa e uma demanda por melhores condições.
O dado de desemprego é um termômetro importante, mas incompleto. A queda para 5,4% reflete uma melhora cíclica evidente na absorção de mão de obra. A composição dessa absorção, no entanto, levanta um debate estrutural sobre o modelo de crescimento e o tipo de emprego que ele tem sido capaz de gerar. A celebração do número, portanto, deve vir acompanhada da sobriedade de analisar suas nuances. É nelas que reside o verdadeiro diagnóstico do mercado de trabalho brasileiro.
Ricardo Mendes — Economia — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Desemprego no Brasil cai a 5,4% no trimestre até junho, diz IBGE
Fontes: g1 · CNN Brasil