A volta ao palco dos fantasmas
Análise · Marcos Tibúrcio O futebol tem memória, e a memória do Maracanã cobra juros.
Análise · Marcos Tibúrcio
O futebol tem memória, e a memória do Maracanã cobra juros. A seleção feminina voltará ao estádio para a abertura da Copa do Mundo, em 24 de junho, uma década depois da última vez. A comissão técnica fala em planejamento, em logística favorável. Arthur Elias, o treinador, enxerga a vantagem de “testar o gramado e a torcida”. Mas um estádio não é apenas grama e cimento. Um estádio é um arquivo de glórias e, principalmente, de assombrações.
A última imagem do Brasil feminino no Maracanã é a da derrota. Uma semifinal olímpica, em 2016, perdida para a Suécia. Foi-se o sonho do ouro em casa. Desde então, a seleção perambulou por outros gramados. Em São Paulo, na Neo Química Arena, construiu um retrospecto de vitórias — seis seguidas, a última sobre as americanas. Em Brasília, no Mané Garrincha, nunca perdeu. Apenas no Rio de Janeiro a história recente é de portão fechado e silêncio amargo.
O plano da Confederação, endossado por Elias, é quase cirúrgico. Estreia no Rio, segue para São Paulo e encerra a primeira fase em Brasília. Se a equipe avançar como líder, como se espera e se cobra, o caminho do mata-mata a levará para Fortaleza, depois Belo Horizonte, e só a final a traria de volta ao Maracanã. É um roteiro que busca domesticar o destino, transformar o drama em uma equação de aeroporto e hotel. O treinador, homem de prancheta e títulos, sabe que a antecedência no planejamento pode render um dia a mais de descanso antes de uma semifinal. É o cálculo correto. É a conta do profissional.
Mas o Maracanã não responde a planilhas. A estreia ali não é um mero teste de campo. É uma convocação. Uma intimação para acertar as contas com o passado antes que o futuro chegue. Elias, que só conhece a Neo Química Arena como palco de trabalho, acerta ao dizer que o estádio é o mais emblemático do país. Mas talvez o peso dessa camisa, nesse gramado específico, seja um dado que foge à sua experiência — um dado que só a arquibancada sente.
O Brasil entra na Copa com a vantagem logística e o fardo simbólico. Jogará a primeira e, se tudo correr como o planejado, a última partida no mesmo palco. Saber o caminho é uma coisa; estar pronto para o que ele guarda é outra. Antes de pensar na taça, as jogadoras terão que encarar o fantasma que elas mesmas deixaram para trás.
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: Agência Brasil