A vitória que a dor não
Análise · Marcos Tibúrcio No mesmo domingo em que as estrelas da nação conheciam o luto da prata, um outro Brasil, sem o peso do favoritismo…
Análise · Marcos Tibúrcio
No mesmo domingo em que as estrelas da nação conheciam o luto da prata, um outro Brasil, sem o peso do favoritismo ou o foco das câmeras, subiu ao pódio. Em Lima, longe do barulho da grande final da Liga das Nações, um time de reservas, uma equipe “B”, como se diz no jargão frio dos escritórios, lembrou ao continente uma verdade antiga: a camisa amarela tem vida própria.
Enquanto a seleção principal de Zé Roberto engolia a amarga virada para a Turquia, um técnico de nome Wagão reunia suas jogadoras para encarar a Colômbia. O prêmio era a Copa Sul-Americana, torneio novo, de segunda prateleira, mas que guardava para si a dignidade de um título. Para as atletas em quadra — Lanna, Karina, Juju Granda —, não havia prata a ser lamentada, apenas ouro a ser buscado.
O roteiro do jogo, no entanto, quis testar a fibra dessa equipe. A Colômbia, comandada por um brasileiro, Guilherme Schmitz, entrou disposta a estragar o domingo por completo. Abriu vantagem, fez 18 a 13 no primeiro set. Num ginásio peruano, sob o comando de um técnico quase anônimo para o grande público, era o cenário perfeito para a desistência. Para o Brasil que se acostumou com o quase, seria apenas mais um capítulo.
Mas não foi. O que se viu foi a reação que faltou em outra latitude. Um bloqueio de Karina para virar o placar em 23 a 22 foi o gesto que transformou o destino do set e da partida. Não era tática, era instinto. Era a resposta de quem não joga por um lugar no panteão, mas por um lugar ao sol.
O que essa conquista em Lima significa? Pouco, para a contabilidade fria dos grandes troféus. Muito, para a alma do esporte. Ela prova que a reserva de talento de um país não se mede apenas pelas manchetes. Revela que, enquanto os holofotes se fixam na tragédia dos vices, há gente trabalhando em silêncio, pronta para vestir a camisa e, sem pedir licença, vencer. Foi um título conquistado na coxia do grande teatro, mas que valeu como a peça principal.
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge