Carlos Alberto Parreira vence batalha contra o câncer
Ex-técnico da Seleção Brasileira, Carlos Alberto Parreira recebe alta hospitalar após tratamento de linfoma.
Análise · Marcos Tibúrcio
O homem que nos ensinou a vencer sem brilho, o pragmático, o arquiteto da disciplina em 1994, saiu do hospital neste sábado. O placar da internação informa: 80 dias. Foram oitenta dias de um jogo jogado sem bola, sem apito e sem o calor da arquibancada — um adversário silencioso e implacável chamado inflamação pulmonar. Ventilação mecânica, hemodiálise. Nomes que não frequentam o vestiário, mas que, na vida real, são mais duros que qualquer zagueiro uruguaio.
Aos 83 anos, Carlos Alberto Parreira conquistou a alta médica. Uma vitória magra, sofrida, como tantas que ele orquestrou do banco. Ao sair, falou em carinho, em parte física a recuperar, no emocional que está bom. É a entrevista de quem venceu nos pênaltis. De quem sabe que, por um triz, o resultado poderia ter sido outro.
A tática da vida
O futebol de Parreira nunca foi para os românticos. Era um futebol de resultados, de planilhas táticas, de anulação do adversário. Foi acusado, por uma geração inteira, de matar a poesia do jogo. De ter trocado o drible pela compactação. Mas o tempo, este juiz implacável, revela que talvez estivéssemos olhando para o lado errado. A força de Parreira nunca esteve na invenção, mas na resiliência. Na capacidade de montar um sistema que, mesmo sem encantar, não perdia. Um sistema que sabia sofrer.
Nesses 80 dias, ele não treinou um time. Ele foi o time. O corpo como campo, a doença como o adversário. E, como naquela Copa nos Estados Unidos, ele usou a tática que dominava: resistir. Sobreviver. Agradeceu às orações da família e dos amigos, que são a torcida que importa quando a disputa é pela vida. A filha, Vanessa, resumiu a partida: “Foi um período muito intenso. A gente sempre teve muita fé.” Fé não entra em estatística de posse de bola, mas ganha campeonato.
Foi submetido à ventilação mecânica invasiva, hemodiálise e uma série de procedimentos para manter a vida. Após dias muito difíceis e de extrema gravidade, todas as adversidades foram superadas.
A nota do hospital, com sua linguagem fria e clínica, descreve um drama que Nelson Rodrigues invejaria. “Procedimentos para manter a vida”. É a súmula de uma batalha que não tem replay nem VAR. Parreira luta há anos contra um linfoma de Hodgkin; esta foi apenas mais uma convocação, a mais difícil delas. Esta leitura, claro, se baseia no alívio do momento; a recuperação em casa será um segundo tempo longo e delicado, longe dos holofotes.
O tetracampeão voltou para casa. Para o cuidado dos seus, para o acompanhamento domiciliar. Não levantou taça, não deu volta olímpica. Mas, para o homem que sempre soube que vencer é o que importa, esta foi, talvez, a sua maior e mais silenciosa vitória. Sem esquema tático, sem estratégia. Apenas a teimosia de quem se recusa a perder.
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fontes: CNN Brasil · ge
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