A viagem que não
Crônica · Heitor Graça O telefone vibrou na mesinha de centro antes das cinco da manhã. Não era um alarme, era a notícia.
Crônica · Heitor Graça
O telefone vibrou na mesinha de centro antes das cinco da manhã. Não era um alarme, era a notícia. Uma daquelas que chegam de madrugada, com a cidade ainda escura, e que a gente lê com um olho só, o outro ainda no sonho. A tela acesa iluminou o cinzeiro vazio e o copo d’água. Um acidente, longe daqui. Em uma estrada do Paraná, a BR-373.
Lá fora, um ônibus noturno freou no ponto, o chiado comprido rasgando o silêncio de Copacabana. Imaginei o motorista olhando o relógio, os poucos passageiros sonolentos, o destino de cada um a poucas quadras de distância. A viagem deles estava acabando. A outra, a do micro-ônibus de Imbituva, acabou de um jeito que viagem nenhuma deveria acabar.
Era um micro-ônibus da Saúde. Esse detalhe, li depois, já com o café pronto, muda tudo. Não levava gente para a praia ou para uma festa de formatura. Levava gente para médico, para exame, para tratamento. Levava a esperança frágil de quem precisa de ajuda e a rotina cansada de quem acompanha. Era um veículo de corredores de hospital, de senhas, de esperas em cadeiras de plástico. Um veículo que saía de madrugada para ganhar o dia.
De um lado, o caminhão de Erechim, com seu próprio rumo e sua própria carga. Do outro, o pequeno ônibus com sua carga de vidas contadas, de preocupações miúdas e de uma fé enorme, depositada no motorista e na estrada. Uma colisão frontal. Vinte e uma pessoas não chegaram. Quatro chegaram, mas a um hospital que não era o destino original.
O sol começou a nascer aqui na janela, tingindo de um laranja tímido o prédio da frente. O porteiro passou lá embaixo, arrastando o latão de lixo. A vida retoma seu barulho, suas urgências pequenas. Mas em algum lugar no Paraná, um silêncio se instalou numa estrada. Um silêncio que nem todas as sirenes do mundo conseguem preencher. E fica a pergunta no ar da manhã: para onde vai a esperança quando o caminho acaba no meio?
Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.
Leia o factual: Acidente entre micro-ônibus e carreta mata 21 na BR-373
Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.