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A verdade que o folclore engoliu

Análise · Marcos Tibúrcio Há verdades que o campo impõe em noventa minutos e outras que o futebol, paciente, costura por décadas.

A verdade que o folclore engoliu
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Marcos Tibúrcio

Há verdades que o campo impõe em noventa minutos e outras que o futebol, paciente, costura por décadas. A frase de Zé do Carmo na barreira do Santa Cruz, naquele 1987, pertencia à segunda categoria. Pertencia. Diante do Galinho de Quintino, pronto para bater a falta, o volante teria se virado ao goleiro Birigui e sentenciado, para a posteridade: “E eu vou perder de ver o gol, é?”.

Era a rendição diante da arte. O reconhecimento, em campo e em armas, de que a bola de Zico não era um projétil, era uma obra em movimento. O Maracanã inteiro, que se preparava para o gol, encontrava no adversário o seu porta-voz. Era bom demais para ser mentira.

E era. Zé do Carmo, aos 65 anos, confessa a fabricação. “Nunca falei isso não”. A história, segundo ele, foi inventada, e ele a adotou. O motivo não foi um delírio poético, mas um cálculo prosaico: “Dava Ibope”. O volante que virou capitão do Vasco, que foi colega de Romário e Bebeto, que chegou à Seleção, entendeu que uma boa lenda valia mais que um desmentido sem graça. Ele alimentou a mentira que o futebol escolheu para si.

Aqui, o fato importa menos que a função. A frase apócrifa sobreviveu por quase quarenta anos porque preenchia uma lacuna na arquibancada. Ela traduzia o sentimento de quem via Zico ajeitar a bola: uma mistura de temor e admiração, a certeza resignada de que a rede era o destino. Zé do Carmo não precisou dizê-la; o Maracanã disse por ele. Ele apenas emprestou o nome ao sentimento geral da nação.

O futebol não é um registro civil de fatos, é uma construção de memória. A mentira de Zé do Carmo era, a seu modo, uma verdade. Uma verdade sobre a impotência diante do gênio. Uma verdade sobre o que significava enfrentar Zico com uma barreira à frente. O próprio Zico, que até hoje brinca com o antigo rival, parece ter entendido que aquela frase, ainda que nunca dita, era o maior elogio que um adversário poderia lhe render. A verdade, afinal, é que o placar já marcava 2 a 1 para o Flamengo, com dois gols dele. O volante pernambucano, na realidade, só queria empatar o jogo.

A confissão tardia não apaga o quadro, apenas revela a moldura. O gol continua lá, antológico. A reverência continua intacta. Talvez agora, sabendo da fabricação, a história fique ainda melhor. Ela nos conta não apenas sobre um golaço, mas sobre a nossa necessidade de criar heróis e anedotas que deem conta de explicá-los.

Quantas outras verdades da arquibancada nasceram assim, de uma mentira bem contada?

Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Zé do Carmo revela que frase sobre gol de Zico era "folclore"

Fonte: ge