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Venezuela enfrenta crise humanitária sob embargo informacional

Análise sobre a crueldade de desastres naturais em países sob controle de regime com embargo informacional duplo.

Venezuela enfrenta crise humanitária sob embargo informacional

Análise · Clara Verdi

Há uma crueldade particular em desastres naturais que atingem países sob embargo informacional duplo — o do regime que controla a narrativa interna e o do desinteresse externo que filtra o que chega ao resto do mundo. A Venezuela, neste terceiro dia de buscas após dois terremotos consecutivos, oferece esse espetáculo amargo: 920 mortos confirmados, mais de 3.360 feridos, equipes correndo contra o relógio biológico que fecha em torno de qualquer sobrevivente soterrado — e a cobertura global tratando o país como nota secundária.

O dado é brutal na sua frieza. Novecentos e vinte mortos não é cifra de tragédia menor. É escala de catástrofe que, ocorrida em país com outra geometria de poder, mobilizaria solidariedade coordenada, cobertura contínua, pressão diplomática sobre quem obstrui o acesso humanitário. Aqui, o que se tem é Delcy Rodríguez — presidente em exercício, figura central do aparato madurista — declarando esperança nos esforços de resgate. A declaração é, ao mesmo tempo, o máximo que se pode esperar e o mínimo que se pode aceitar como informação.

O terceiro dia após um soterramento não é igual ao primeiro nem ao quinto. É o dia que os especialistas em resgate chamam de crítico porque o corpo humano, mesmo treinado para resistir, começa a perder a batalha contra a desidratação, o trauma e o frio. É o dia em que cada hora conta de modo diferente das horas anteriores. Que esse dia coincida com a escassez de imagens independentes, de jornalistas com acesso livre, de dados verificáveis por fontes fora da estrutura estatal — isso não é acidente. É a condição permanente do jornalismo na Venezuela.

A catástrofe natural e a catástrofe política se sobrepõem de um modo que não permite separá-las analiticamente: o estado das infraestruturas, a capacidade de resposta, o acesso a equipamentos de resgate, a possibilidade de ajuda internacional chegarem sem ser instrumentalizadas — tudo isso é político antes de ser técnico.

Existe uma tentação, ao cobrir a Venezuela desde fora, de reduzir tudo ao Maduro, ao regime, à crise que já virou palavra proibida nesta coluna por razões estilísticas mas que aqui seria ao menos honesta. A tentação deve ser resistida não porque o regime seja irrelevante — é central — mas porque ela apaga as pessoas. Os 920 mortos não são símbolos de nada. São mortos. Os feridos são corpos com dor localizada, com nomes, com famílias que esperam em algum lugar que as câmeras não alcançam.

A Europa, para onde olho habitualmente, não aparece nesta história de modo significativo. Aparecerá, talvez, em alguma declaração de solidariedade protocolar, no tipo de nota que os chanceleres emitem quando o desastre é grande demais para ignorar e pequeno demais para ocupar agenda. Isso também é uma forma de posicionamento — o silêncio articulado da geopolítica que escolhe onde chorar.

O que resta, enquanto as equipes escavam, é a aritmética cruel do resgate: cada hora que passa sem encontrar alguém vivo fecha uma possibilidade que não se reabre. O relógio corre. A cobertura, não necessariamente.

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Venezuela busca sobreviventes de terremotos em dia crítico de resgate

Fontes: g1 · BBC News Brasil