A Venezuela saqueia a si mesma após o tremor
Análise · Clara Verdi Há uma frase que circula entre os que estudam colapso de Estado: o desastre natural não cria a crise, ele a revela.
Análise · Clara Verdi
Há uma frase que circula entre os que estudam colapso de Estado: o desastre natural não cria a crise, ele a revela. O que aconteceu nas horas seguintes ao duplo terremoto na Venezuela — saques que começaram antes que a terra parasse de tremer, uma mercearia esvaziada até os fios elétricos da parede — não é aberração. É diagnóstico.
A Venezuela que aparece nessas imagens não é a Venezuela do terremoto. É a Venezuela de antes dele. O saque imediato, quase reflexo, diz algo sobre o nível de desintegração do tecido social num país onde o Estado há anos não cumpre a função mais elementar de garantir que as pessoas comam. Quando a instituição desaparece do cotidiano, ela também desaparece da memória do corpo — e o corpo, diante do caos, age sem esperar por ela.
Isso não é julgamento moral sobre quem saqueou. É observação política. A violência do saque é sempre, em alguma medida, a violência acumulada de quem foi abandonado devolvida de uma só vez. O que surpreende não é que tenha acontecido; é a velocidade. A terra ainda não havia parado de tremer. Não houve nem o intervalo do luto.
O desastre natural não cria a crise, ele a revela.
A Venezuela de Maduro chegou a este terremoto com uma infraestrutura destruída por combinação de má gestão, corrupção sistêmica e sanções internacionais — e aqui a responsabilidade é, deliberadamente, plural. O país que recebia na década passada a maior receita petrolífera de sua história construiu dependência em vez de resiliência. Quando o preço do petróleo caiu e o regime se fechou sobre si mesmo, o que restou foi uma população com memória de abundância e experiência de escassez. É uma combinação explosiva mesmo sem terremoto.
O que o duplo sismo faz é retirar o véu da normalidade administrada — aquela paz superficial que autoridades apresentam como estabilidade. Num Estado funcional, o intervalo entre o desastre e a resposta institucional é preenchido por solidariedade horizontal, por redes comunitárias, por alguma confiança de que o socorro virá. Na Venezuela de hoje, esse intervalo é preenchido pelo saque. A ausência do Estado não começou com o terremoto; o terremoto apenas tornou essa ausência visível demais para ser negada.
Para quem acompanha a Venezuela de fora — e o Brasil tem razões geográficas, históricas e humanitárias para acompanhar de perto —, o dado mais relevante não é o número de magnitude na escala Richter. É este: numa sociedade onde os laços de confiança entre cidadão e instituição foram corroídos por décadas de promessas não cumpridas, o desastre não une. Ele dispersa. Cada um por si, antes que venha mais alguém.
Resta saber, agora, se o governo venezuelano terá capacidade — logística e política — de conduzir uma resposta de emergência que reconstrua ao menos a aparência de presença do Estado. O que não se reconstrói em dias é o que foi destruído em anos: a crença de que há, do outro lado, alguém responsável por você.
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: Roubos e saques começam na Venezuela após duplo terremoto
Fontes: Folha de S.Paulo · UOL