Venezuela sofre dois terremotos em sequência
Em 24 de junho, dois terremotos atingiram a Venezuela. Confira análise de Clara Verdi sobre os impactos.
Análise · Clara Verdi
Em 24 de junho, dois terremotos atingiram a Venezuela em sequência. O Unicef estima que 3,9 milhões de crianças e adolescentes vivam nas áreas afetadas — e que 680 mil delas precisem de ajuda imediata. O número é preciso o suficiente para parecer confiável e grande o suficiente para paralisar. Mas o que ele não diz é o que exige interpretação.
A Venezuela não é um país que começa a sofrer no momento em que a terra treme. É um país que já carregava, antes do dia 24, uma crise humanitária de proporções que a comunidade internacional aprendeu a nomear com cuidado para não ter de agir com urgência. Quando um desastre natural chega a um território onde o Estado já falhou sistematicamente na provisão de saúde, alimentação e infraestrutura básica, o que se produz não é uma crise sobreposta a outra — é uma crise que se aprofunda em camadas que os satélites não fotografam.
Há algo perversamente revelador na linguagem das agências internacionais nesse momento. O Unicef fala em crianças que "precisam de ajuda" — expressão neutra, técnica, projetada para atravessar fronteiras diplomáticas sem atrito. Mas por trás da neutralidade está uma realidade que o Rio de Janeiro dos anos noventa ensinava a reconhecer: criança que "precisa de ajuda" depois de um terremoto, num país sem sistema de saúde funcional, sem rede de abastecimento confiável, sob um governo que controla o fluxo de informação e o acesso humanitário, é criança em perigo real, não estatístico.
A distinção entre desastre natural e desastre político, na Venezuela de Maduro, é menos uma linha do que uma ficção necessária para que os organismos multilaterais possam operar.
A Europa olha para isso com a distância de quem reconhece o problema sem sentir o cheiro. Bruxelas emite notas, o Parlamento Europeu aprova resoluções, as ONGs fazem triagem nos campos da Colômbia e do Peru, onde a diáspora venezuelana — uma das maiores do mundo, esquecida nas narrativas sobre migração quando convém — vive o exílio com a dignidade precária de quem não escolheu partir. Os terremotos de junho vão aumentar essa pressão migratória. Não amanhã, mas nos próximos meses, quando ficar claro o que foi destruído e o que o Estado não vai reconstruir.
O Unicef tem razão nos números. O que os números não fazem é situar a catástrofe no tempo longo — no processo de décadas que transformou um dos países mais ricos em petróleo do hemisfério num lugar onde 680 mil crianças precisam de socorro depois de dois terremotos de uma única semana. A terra tremeu. Mas o chão já havia cedido muito antes.
Clara Verdi — Correspondente Europa, Xaplin
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: Unicef estima 680 mil crianças que precisam de ajuda na Venezuela
Fontes: g1 · Folha de S.Paulo · UOL
Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.