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Terremotos aprofundam crise humanitária na Venezuela

Os recentes terremotos na Venezuela agravaram a crise humanitária, ampliando o número de deslocados internos e refugiados.

Terremotos aprofundam crise humanitária na Venezuela

Análise · Clara Verdi

Há uma diferença que importa entre refugiado e deslocado interno — e é precisamente essa diferença que os terremotos recentes forçam a encarar na Venezuela. O refugiado cruza uma fronteira; o deslocado interno fica preso dentro do mesmo Estado que já não consegue protegê-lo. Na Venezuela de hoje, as duas condições coexistem, se sobrepõem e, depois dos tremores da semana passada, se aprofundam numa espiral que o noticiário internacional tende a registrar como catástrofe natural quando é, na verdade, o colapso continuado de um Estado.

A migração forçada venezuelana tem pelo menos dez anos de história. Dez anos em que famílias partiram com uma mala e a promessa de voltar; em que rotas clandestinas pelo Darién se tornaram percursos rotineiros; em que Caracas esvaziou bairros inteiros de classe média e de trabalhadores ao mesmo tempo. O terremoto não inaugurou uma crise — adicionou uma camada de urgência física a uma crise que já era estrutural, política e econômica. É essa sobreposição que torna o momento analiticamente difícil e humanamente devastador.

O que emerge agora é a figura específica do deslocado interno: aquele que não tem para onde ir fora do país, ou que não tem condições de partir, e que dentro do próprio território perde o que ainda restava de estabilidade material. Uma casa danificada num contexto de colapso dos serviços públicos não é apenas uma casa danificada — é a ruptura do último amortecedor entre a precariedade suportável e o insuportável. E num país onde o Estado há anos não garante acesso confiável a água, eletricidade ou saúde, um terremoto não é um evento excepcional que interrompe a normalidade: é a normalidade que se intensifica.

O drama da migração forçada ganha nova roupagem, dizem os relatos — mas a roupagem é velha. O que muda é a velocidade com que a decisão de partir se torna inevitável para quem ainda hesitava.

Existe uma perversidade particular nessa temporalidade. Quem ficou na Venezuela nos últimos anos — seja por escolha, por vínculo afetivo, por falta de recursos para sair — construiu uma forma de resistência cotidiana ao colapso. Os terremotos atacam exatamente essa resistência. Destroem o concreto e destroem também o cálculo emocional e prático que mantinha alguém no lugar. Nesse sentido, cada novo deslocado interno é também um emigrante em potencial que o desastre empurra para mais perto da fronteira.

A América do Sul já absorveu milhões de venezuelanos. As rotas estão sobrecarregadas, as políticas de acolhimento nos países vizinhos são instáveis, e o Brasil — que divide fronteira com a Venezuela — oscila entre impulsos humanitários e restrições administrativas que dependem muito mais do clima político interno do que de qualquer lógica de proteção internacional. Uma nova onda de deslocados, agora impulsionada não apenas pela penúria econômica mas pela destruição física de moradias, vai encontrar sistemas de recepção que já operam no limite.

O terremoto será esquecido rapidamente pelos noticiários. A Venezuela voltará a ser um parágrafo sobre autoritarismo ou uma nota sobre inflação. O que não desaparece são as pessoas que agora têm ainda menos razões para ficar — e que carregarão, em qualquer fronteira que cruzarem, a marca dupla de quem fugiu de um Estado e de uma terra que também cedeu.

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Terremotos intensificam crise migratória na Venezuela

Fontes: Folha de S.Paulo · UOL

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.