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Venezuela enfrenta colapso de infraestrutura crítica

O país atravessa crise profunda de energia, água e transportes após anos de abandono estatal.

Venezuela enfrenta colapso de infraestrutura crítica

Análise · Clara Verdi

Dois terremotos. Uma semana. 2.295 mortos. O número, que sobe enquanto este texto é escrito, não é apenas uma contagem de vítimas — é um diagnóstico. A Venezuela não morreu de terremoto. Morreu, em grande parte, do que já estava destruído antes que o chão tremesse.

A OMS alertou para risco de epidemias e para o que chama, com cautela burocrática, de "cenário de caos". Mas o caos venezuelano não tem data de início nos registros sísmicos de uma semana atrás. Tem data longa, construída sobre décadas de desinvestimento, colapso do sistema de saúde pública, êxodo de médicos e engenheiros, e uma infraestrutura habitacional que nas regiões mais pobres nunca foi pensada para resistir ao que o solo, eventualmente, sempre faz: mover-se.

Há uma gramática específica para desastres em países periféricos. O terremoto mata duas vezes: uma vez com a força tectônica, outra com tudo que foi negligenciado antes dele. No Haiti de 2010, a brutalidade da segunda morte foi exposta com uma clareza que o mundo preferia não ver. Na Venezuela de 2025, a exposição é ainda mais incômoda, porque o colapso da infraestrutura não é resultado de décadas de colonialismo sem nome — é resultado de um processo político documentado, discutido, contestado e, por vinte anos, observado de perto pela comunidade internacional sem que se chegasse a nenhuma intervenção efetiva além de sanções que, na prática, empobreceram ainda mais os que já não tinham nada.

Onze mil duzentas e sessenta e sete pessoas feridas, segundo o presidente da Assembleia Nacional. E o número de mortos que sobe, que vai continuar subindo, que nunca é definitivo em desastres desse porte, especialmente quando o sistema de saúde que deveria registrar, tratar e conter já estava operando, há anos, em colapso silencioso.

O risco de epidemias que a OMS aponta não é uma ameaça futura. É a consequência natural de um estado que, muito antes do terremoto, havia perdido a capacidade de garantir água tratada, saneamento e atenção hospitalar à maior parte da sua população.

A Venezuela está a quatro horas de voo do Brasil. É um país com o qual o Brasil tem história, fronteira, migração e obrigações regionais que foram, dependendo do governo, exercidas com hipocrisia, com omissão ou com gestos insuficientes. O que acontece agora não é um evento externo ao continente — é parte de uma crise hemisférica que o Brasil observa com o distanciamento confortável de quem se imagina em outra liga.

2.295 mortos é um número que vai ficar menor nas manchetes conforme os dias passem e o interesse noticioso se desloque. A Venezuela vai continuar existindo depois que os alertas da OMS deixarem de render pauta. O que resta saber — e é uma pergunta genuinamente política, não retórica — é o que o continente faz com isso, além de contabilizar.

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Sobe para 2.295 o número de mortos em terremotos na Venezuela

Fontes: g1 · Folha de S.Paulo · CNN Brasil · UOL

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.