A Noruega não é presente — é teste
Análise · Marcos Tibúrcio Há uma armadilha confortável que o futebol brasileiro conhece de cor. Ela tem nome, tem cara, tem história de eliminação.
Análise · Marcos Tibúrcio
Há uma armadilha confortável que o futebol brasileiro conhece de cor. Ela tem nome, tem cara, tem história de eliminação. Chama-se adversário subestimado. A Noruega, nas oitavas de final desta Copa, oferece exatamente esse perigo — não porque seja imbatível, mas porque parece acessível demais num torneio que já liquidou favoritos antes do horário.
A análise que circula é a de que a Noruega representa um rival menos complicado do que seria a Costa do Marfim. Pode ser verdade. Provavelmente é. Mas "menos complicado" é uma categoria que o futebol trata com descaso irritante — e que a Copa do Mundo transforma em armadilha com uma regularidade que deveria ensinar mais do que ensina.
O Brasil chegou às oitavas. Esse dado, por si só, já exige contextura. Num torneio que se expande, que acolhe mais seleções, mais surpresas e mais geometrias táticas imprevisíveis, passar de fase não é mais o mesmo gesto que era. É o começo, não a confirmação de nada. E as oitavas, historicamente, foram o cemitério de algumas das gerações brasileiras mais talentosas — não por falta de qualidade, mas por excesso de certeza.
A Noruega desta Copa chegou até aqui por algo. Nenhuma seleção atravessa a fase de grupos de uma Copa do Mundo por acidente. Tem estrutura, tem organização, quase certamente tem um bloco defensivo que vai exigir paciência — o tipo de paciência que o futebol brasileiro nem sempre encontra quando a torcida nas arquibancadas começa a cobrar velocidade que o jogo ainda não comporta.
Tirando a França, que até agora vem desfilando nos gramados da Copa, e talvez a Argentina, os demais favorecem a tese de que ninguém está confortável neste torneio.
Esse é o pano de fundo que importa. Não existe chave fácil quando você joga oitavas de Copa do Mundo nos Estados Unidos, com estádios que não eram de futebol e se tornaram, com público que mistura diásporas e tradições que mudam a temperatura emocional do jogo de maneira que nenhum relatório técnico captura inteiramente. A arquibancada aqui não é decoração — ela interfere, ela pressiona, ela cria o jogo dentro do jogo.
O Brasil tem, neste torneio, a obrigação de se comportar como o que é: uma das seleções mais talentosas da competição. Mas talento sem leitura de momento virou material de necrológio futebolístico. A Noruega não é uma barreira intransponível — tudo indica que não seja. O que ela é, com precisão, é um teste sobre como esta seleção responde quando o adversário decide que não vai jogar para perder. Porque nenhum adversário joga para perder numa oitavas de Copa do Mundo. Nenhum.
O conforto de ter um rival "menos complicado" deveria durar até a noite anterior ao jogo. Depois disso, só serve para adormecer o que precisa estar acordado.
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge