Brasil forma mais médicos que EUA e China
Em duas décadas, o Brasil criou um sistema de ensino médico que supera em número absoluto os Estados Unidos e a China, mas sem garantias de qualidade.
Análise · Dra. Camila Torres
O Brasil formou, em duas décadas, um sistema de ensino médico que supera em número absoluto os Estados Unidos, a China e praticamente todo o Ocidente. Em 2004, eram 143 faculdades de medicina no país. Hoje são 494. Ficamos atrás apenas da Índia — um país com mais de um bilhão de habitantes a mais e uma crise de cobertura sanitária de escala incomparável à nossa. O paralelo não é elogio.
O problema não é a quantidade em si. É o que a quantidade sem controle de qualidade produz: médicos formados por instituições cujo compromisso com o aprendizado clínico pode ser, na melhor das hipóteses, irregular. Expandir o acesso à formação médica seria uma política pública legítima se viesse acompanhada de mecanismos sérios de avaliação de competência. Não veio.
A medicina é uma das raras profissões em que a incompetência do praticante se traduz diretamente em dano físico a outra pessoa. Um engenheiro civil mal formado pode construir uma ponte instável; um médico mal formado atende pacientes todos os dias, em consultórios, prontos-socorros, UTIs. A assimetria de informação entre médico e paciente é brutal — quem está na maca raramente tem condições de avaliar se o raciocínio clínico de quem o examina é sólido ou frágil.
É nesse ponto que o exame de habilitação obrigatório deixa de ser uma medida corporativista — como seus críticos costumam enquadrá-la — e passa a ser uma questão de proteção ao paciente.
Países com sistemas de saúde reconhecidamente robustos adotam alguma forma de avaliação nacional antes do exercício da medicina. O United States Medical Licensing Examination, o USMLE, existe há décadas nos Estados Unidos. O Reino Unido tem o Medical Licensing Assessment, implementado pelo General Medical Council. A lógica é simples: a sociedade delega ao médico um poder extraordinário sobre corpos e vidas; em troca, exige que esse médico demonstre competência mínima verificável.
O Brasil caminhou na direção oposta durante vinte anos. Abriu-se a torneira das autorizações para novas faculdades sem que houvesse, em paralelo, uma estrutura de avaliação de saída que funcionasse como filtro. O Enade existe, mas sua adesão e seus efeitos sobre o exercício profissional são limitados. O Revalida avalia médicos formados no exterior, mas não há equivalente compulsório para os formados aqui.
O resultado prático é uma distribuição desigual de qualidade que o paciente não consegue ver. Quem tem acesso a especialistas em grandes centros urbanos privados navega num mercado em que reputação e resultados funcionam como sinalizadores — imperfeitos, mas existentes. Quem depende do SUS no interior do Pará ou no semiárido baiano não tem essa escolha. Recebe o médico disponível. E merece, como qualquer outro cidadão, que esse médico saiba o que está fazendo.
Não se trata de fechar faculdades nem de reduzir o número de médicos — o Brasil ainda tem distribuição geográfica profundamente injusta de profissionais de saúde. Trata-se de garantir que a expansão do acesso à formação não tenha sido, silenciosamente, uma expansão do risco ao paciente. Um exame obrigatório não resolve tudo. Mas é o mínimo que uma política séria de saúde pública poderia exigir.
Camila Torres é médica (USP) e epidemiologista (Harvard T.H. Chan). Chefe de Saúde da Xaplin.
Dra. Camila Torres — Saúde — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Brasil tem 494 faculdades de medicina
Fontes: Folha de S.Paulo · UOL
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