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A velhice é um espelho

Análise · Luciano Aragão A filha de uma professora aposentada usou o celular da mãe para contratar cinco empréstimos consignados.

A velhice é um espelho
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Luciano Aragão

A filha de uma professora aposentada usou o celular da mãe para contratar cinco empréstimos consignados. A conta chegou a R$ 370 mil. A professora, que se recuperava de um aneurisma e perdera a visão de um olho, tornou-se parte de uma estatística que não para de crescer: a de idosos vítimas de violência patrimonial. No ano passado, foram mais de 59 mil denúncias do tipo. Só neste ano, já passam de 19 mil.

O episódio, narrado pelo servidor público Flávio Amorim sobre sua mãe e irmã, é um retrato agudo de um país que envelhece de forma desigual e desprotegida. Seis em cada dez brasileiros com mais de 60 anos dependem exclusivamente de benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) para viver. O teto pago pela previdência pública é de R$ 8.475,55. A realidade, contudo, cabe em uma média de R$ 3.207,05, segundo dados do Ministério da Previdência.

O sistema previdenciário não cria a desigualdade. Ele a reflete e a carimba para o futuro. Como nota Nina Silva, CEO do Movimento Black Money, trabalhadores pretos e pardos recebem salários até 45% menores que os brancos ao longo da vida. A aposentadoria, sendo um reflexo do histórico de contribuições, apenas perpetua a distância. Chega-se à velhice com o que se acumulou na juventude e na vida adulta. Ou com a falta do que não se acumulou.

No mesmo país onde temos grupos sociais que estão chegando facilmente aos 80 anos com um acúmulo de poupanças – poupança de saúde, de segurança e financeira –, temos também um grupo que não está chegando com nada disso.

A frase é de Alexandre da Silva, o Secretário Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa. O que ela descreve é a existência de duas velhices. Uma, de servidores com regimes próprios ou de quem pôde construir uma previdência privada. Outra, da maioria que depende de um benefício estatal modesto e se torna alvo preferencial de fraudes e abusos, muitas vezes dentro da própria família.

A violência patrimonial não é um crime de oportunidade avulso. É um sintoma. Ocorre onde a renda é escassa e a dependência financeira, alta. Onde o único patrimônio de uma família inteira está depositado, mês a mês, na conta de um aposentado. A longevidade, que deveria ser uma conquista, converte-se em um fardo financeiro e um risco diário.

Enquanto Brasília discute a sustentabilidade de um sistema que paga cada vez mais benefícios por mais tempo, uma pergunta antecede o debate fiscal: que tipo de segurança o Estado oferece a quem já contribuiu por uma vida inteira?

Luciano Aragão — Brasília. Xaplin.

Leia o factual: Seis em cada dez idosos no Brasil vivem de benefícios do INSS

Fonte: Agência Brasil

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.