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A terra treme onde o mapa se rasga

Análise · Clara Verdi Às 7h34 da manhã de uma segunda-feira, a Colômbia inteira sentiu o chão desaparecer.

A terra treme onde o mapa se rasga
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Clara Verdi

Às 7h34 da manhã de uma segunda-feira, a Colômbia inteira sentiu o chão desaparecer. Foi um abalo de 96 quilômetros de profundidade, um golpe surdo vindo das entranhas da Cordilheira Ocidental, forte o bastante para balançar os prédios em Bogotá e Medellín, para chegar até o Equador, para ser um evento continental. Mas a fratura, a ferida exposta, se abriu longe das capitais. Abriu-se em San José del Palmar, um município montanhoso de menos de seis mil habitantes no departamento de Chocó, e estilhaçou a vida a cinquenta quilômetros dali, em Pereira.

Dezoito mortos em Pereira. Vinte prédios desabados em Cali. O aeroporto danificado. Números que chegam como fragmentos, a contabilidade fria da tragédia que se impõe sobre o cotidiano da Região Cafeeira. A declaração da governadora de Chocó, Nubia Carolina Córdoba-Curi, tem a urgência de quem está no epicentro do invisível: ela fala em "grave evento sísmico", mas a sua preocupação real está nos tremores secundários, na avaliação dos danos, no primeiro relatório oficial que tentará dar contorno ao caos. É a burocracia da dor.

O sismógrafo do Serviço Geológico dos EUA registrou 7.4 na escala. Um número. Para quem vive no Eje Cafetero, o tremor não tem escala, tem o nome da rua onde um prédio residencial ruiu, tem o pânico da evacuação, o som do concreto se partindo. O fato de o abalo ter sido profundo explica a sua vasta réplica, mas não a sua violência concentrada. A terra tremeu para muitos, mas se rompeu para poucos, naqueles lugares que a geografia e a história já haviam marcado com uma certa vulnerabilidade.

A Colômbia não é só a sua violência narrada em série, nem o seu realismo mágico exportado como souvenir. É também esta placa tectônica inquieta, esta geografia que se impõe com uma força indiferente aos dramas humanos. O tremor em San José del Palmar é um lembrete dessa condição. E enquanto a Unidade Nacional para a Gestão do Risco de Desastres confirma que não há ameaça de tsunami no Pacífico, fica a pergunta sobre as ondas que se formam em terra firme.

Que tremores secundários, sociais e políticos, vêm depois que o chão para de tremer?

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Terremoto de 7,4 atinge Colômbia e causa mortes em Pereira

Fontes: g1 · BBC News Brasil