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A terra não esquece

Análise · Clara Verdi O tremor em si é um evento do instante: um deslocamento geológico, brutal e indiferente.

A terra não esquece
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Clara Verdi

O tremor em si é um evento do instante: um deslocamento geológico, brutal e indiferente. A terra racha, um shopping em Kashima explode, e a vida de dezenas de operários se torna estatística de desaparecidos. A imagem do Aeon Mall parcialmente desmoronado, vista de cima, tem a asséptica desolação de todas as catástrofes modernas. O que vem depois do instante, porém, pertence a outro tempo — o tempo da espera, que é uma forma de memória e de angústia.

O alerta da Agência Meteorológica do Japão, ao falar da possibilidade de um novo terremoto, talvez mais forte, nos dias seguintes, não é apenas um comunicado técnico. É a tradução científica de um saber antigo: o de que um golpe raramente vem só. A terra, diz o relatório, tem um padrão de comportamento, uma história sísmica. O tremor de magnitude 7,1 não foi um ponto final, mas uma vírgula em uma frase geológica que pode se estender por dias, talvez uma semana.

Nesse intervalo, o Japão não vive o fato consumado, mas a iminência. É uma suspensão que altera a percepção do solo, que deixa de ser a base sólida da existência para se tornar uma superfície provisória, uma ameaça latente sob os pés. O chão firme é uma convenção que um tremor de dez quilômetros de profundidade revoga sem aviso. A rotina é interrompida não apenas pela destruição visível, mas pela possibilidade invisível da sua repetição.

Esta espera forçada, este viver sob o signo da contingência, é a verdadeira experiência do desastre. A contagem dos mortos e dos danos materiais virá depois, como um inventário da perda. O presente, no entanto, é feito de outra substância: a da vulnerabilidade partilhada. Nas áreas que sofreram os abalos mais fortes, cada silêncio pode ser a antecâmara de um novo estrondo. Cada objeto, um projétil em potencial. A terra guarda sua própria lógica, e os homens, agora, só podem aguardar a sua próxima palavra.

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Japão alerta para risco de novo tremor forte

Fontes: g1 · UOL