A teimosia de um homem e a raquete de um deus
Análise · Marcos Tibúrcio Uma bola de celuloide, menor que o punho de um homem, não costuma parar um país.
Análise · Marcos Tibúrcio
Uma bola de celuloide, menor que o punho de um homem, não costuma parar um país. Não tem o peso do couro que estufa a rede no Maracanã. Mas na Vila Olímpica de Maceió, sob o calor que não perdoa, o som seco da bolinha contra a raquete de Hugo Hoyama tinha a gravidade de um hino. O decacampeão pan-americano, um nome que para o tênis de mesa brasileiro é Pelé e Garrincha na mesma pessoa, não estava ali para disputar medalha. Estava para uma missão mais antiga, quase bíblica: espalhar a palavra.
O esporte de ponta vive de luz, de arena cheia, de contrato milionário. Vive de São Paulo, do Rio, do eixo onde o dinheiro e a câmera se encontram. Maceió, para essa geografia, é periferia. É o lugar para onde o atleta vai nas férias, não para trabalhar. E é exatamente essa a fratura que a presença de Hoyama expõe. Ele não foi dar autógrafo. Foi dar aula, olhar no olho de uma garotada que, como ele mesmo disse, tem “muito talento”. A palavra é dele, o peso é da história que ele carrega.
Nenhum deus do esporte, contudo, opera milagre sem um profeta local. O homem que moveu a montanha atende por Luís Neto, presidente da Federação Alagoana. Sua confissão é a alma do evento: “A Copa está acontecendo porque eu sou teimoso”. A teimosia. Eis o motor anônimo que empurra o esporte brasileiro muito mais que qualquer plano de governo. A teimosia de quem vê um ginásio e sonha com 900 atletas, com 28 mesas, com o barulho que enche hotéis e restaurantes.
Enquanto Hoyama ensinava o gesto, o movimento dos pés, a concentração que transforma um garoto em campeão, Luís Neto provava que a perseverança é uma tática tão decisiva quanto o melhor saque. A clínica de Maceió não foi apenas sobre o futuro do tênis de mesa. Foi sobre a geografia do esporte no Brasil. Um lembrete de que o talento não brota apenas onde há estrutura, mas floresce em qualquer lugar onde um teimoso resolva cavar a terra.
Hoyama disse ter certeza de que um atleta de Alagoas um dia vestirá a camisa do Brasil. Não é otimismo de garoto propaganda. É a aposta de quem já viu de tudo e sabe que um campeão nasce menos do projeto e mais da obsessão — a sua, na mesa, e a de um outro, fora dela, que se recusa a aceitar o mapa como destino.
Quantos Luís Netos existem por este país, movendo mundos em silêncio para que um dia uma criança encontre seu Hugo Hoyama?
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge