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A tarde que parou na esquina da Satamini

Crônica · Heitor Graça Há um jeito muito particular de o sábado à tarde se derramar pela Tijuca.

A tarde que parou na esquina da Satamini
Capa tipográfica · Xaplin

Crônica · Heitor Graça

Há um jeito muito particular de o sábado à tarde se derramar pela Tijuca. Não tem a pressa da sexta nem a melancolia do domingo. É um tempo suspenso, feito para resolver pequenas coisas: o conserto de um relógio, a compra de um pão mais fresco, uma caminhada sem destino certo. É a hora em que o sol já não castiga, apenas doura as copas das árvores na Doutor Satamini.

A gente se acostuma com os cenários. A cabine da PM na esquina com a Matoso, por exemplo, virou uma espécie de mobília urbana, uma lembrança de algo que já foi útil, como um orelhão sem o telefone. Moradores passam por ela com a indiferença de quem já a incorporou à paisagem, um fantasma azulado que há uns dois anos não abriga ninguém.

E a mulher passava por ali. Talvez voltasse do mercado, talvez fosse encontrar alguém. O que se sabe é que tinha uma perna que a levava e a outra também, ambas cumprindo a simples e maravilhosa função de caminhar sob o sol ameno de um sábado tijucano. Um policial de folga também cumpria seu destino de pedestre a poucos metros, talvez absorto em alguma conversa ao celular, talvez apenas sentindo a brisa. E um homem numa moto cumpria um destino diferente, um que rasga a tarde dos outros.

O que vem depois é rápido demais para a placidez do bairro. Um anúncio de assalto, um celular trocando de mãos, a desconfiança de um volume na cintura. O que era uma tarde de sábado vira um instante de sobrevivência. A reação, os tiros.

No meio de tudo, a mulher que apenas passava. Uma dor aguda na perna, a incompreensão, o asfalto que chega rápido demais. De repente, a tarde dela não era mais sobre pão fresco ou encontros marcados. Era sobre um hospital municipal, a estabilidade do seu estado e o fato de que uma bala não escolhe quem está apenas vivendo seu sábado.

O policial encontrou o ladrão depois, também com a perna ferida, num hospital. A justiça seguiu seu curso. Mas na esquina da Satamini com a Matoso, a tarde de sábado ficou manchada. Ninguém a devolverá inteira à mulher que só queria chegar aonde quer que estivesse indo, com suas duas pernas e a tranquilidade a que tinha direito.

Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.

Leia o factual: Mulher é baleada durante assalto a policial na Tijuca, RJ

Fontes: g1 · CNN Brasil

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.