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A taça é um fantasma de ouro

Análise · Marcos Tibúrcio A Copa do Mundo, o objeto em si, não pertence a ninguém.

A taça é um fantasma de ouro
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Marcos Tibúrcio

A Copa do Mundo, o objeto em si, não pertence a ninguém. Passa de mão em mão, erguida por capitães com os braços trêmulos de glória e exaustão, mas nunca repousa. Ao fim da festa no gramado, ainda sob a chuva de papel picado e o eco dos cantos que morrem na noite, ela é devolvida. Como um tesouro emprestado, é recolhida por homens de terno e retorna aos cofres de onde saiu. A nação campeã leva para casa uma cópia, um retrato fiel, mas sem a alma do original de ouro maciço.

Este protocolo, que transforma a maior glória do futebol numa posse transitória, não nasceu de um capricho burocrático. Nasceu de uma cicatriz brasileira. A taça anterior, a Jules Rimet, nós a tivemos em definitivo. Foi nossa pelo direito da bola, conquistada por três gerações de gênios, de Bellini a Carlos Alberto, passando por Mauro Ramos. Era o testemunho físico de que o futebol, em sua expressão mais sublime, falava português. Guardada numa sede de federação na Rua da Alfândega, no Rio, ela desapareceu em 1983. Derretida.

O crime foi uma anedota de subúrbio com consequências globais. Um argentino e um grupo de brasileiros, figuras menores que a história se encarregaria de esquecer, transformaram a deusa alada em lingotes de ouro. Com o ato, não roubaram apenas um troféu; roubaram a prova material de uma era. E ensinaram à Fifa, da maneira mais dura, que a paixão humana pelo ouro é tão antiga quanto a paixão pela bola — e, por vezes, mais forte.

Desde então, a Copa do Mundo tornou-se intocável, uma propriedade perpétua de uma instituição, não de um povo. O que os jogadores levantam hoje é um símbolo poderoso, mas fugaz. É o instante, não a permanência. A taça que Messi ergueu no Catar, ou que Rodri poderia ter levantado, é a mesma que um dia outro capitão erguerá nos Estados Unidos, no México ou no Canadá. Ela não guarda a memória de um só dono.

Talvez haja uma verdade nisso. A glória não se tranca num cofre. Vive no filme que passa na cabeça de cada torcedor, na fotografia amarelada na parede, na história contada de pai para filho. A taça, a de verdade, é um fantasma de ouro que aparece a cada quatro anos para nos lembrar do que se pode alcançar, mas nunca possuir para sempre. O resto é uma réplica. E uma saudade do que foi nosso.

Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.

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Fonte: ge