A soja, a urna e a disputa pela herança de 2022
Análise · Beatriz Fonseca Em 2022, o então presidente Jair Bolsonaro reuniu embaixadores no Palácio da Alvorada para questionar a lisura do sistema…
Análise · Beatriz Fonseca
Em 2022, o então presidente Jair Bolsonaro reuniu embaixadores no Palácio da Alvorada para questionar a lisura do sistema eleitoral brasileiro. O ato resultou em sua inelegibilidade, declarada pelo Tribunal Superior Eleitoral no ano seguinte. Na última terça-feira, 21 de julho, seu filho, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), repetiu a liturgia: diante de 42 diplomatas estrangeiros, fez afirmações sobre as urnas eletrônicas já desmentidas pela Justiça Eleitoral, como a falsa conexão com a empresa venezuelana Smartmatic.
A reação mais calculada não veio do governo, mas de um adversário direto no campo da direita. Na quarta-feira, 22, o pré-candidato à Presidência Ronaldo Caiado (PSD) usou as redes sociais para demarcar uma diferença. Não de ideologia, mas de método. O ex-governador de Goiás contrapôs a agenda institucional que, em sua visão, deveria ter sido priorizada, à pauta eleitoral da família Bolsonaro.
Quarenta e dois embaixadores numa sala: dava pra vender soja. Dava para abrir mercado para indústria. Dava para atrair investimento.
A frase de Caiado é um gesto político. Ele se posiciona não como um crítico do bolsonarismo, mas como um gestor pragmático. A crítica não recai sobre a natureza da desinformação, mas sobre a improdutividade do ato. Onde o senador do PL viu um palanque para contestar as instituições, o ex-governador de Goiás enxergou uma oportunidade comercial perdida. É um discurso que tenta capturar o eleitor de direita que busca resultados econômicos e estabilidade, em oposição a um projeto que ainda orbita a eleição de 2022.
Essa mudança de tom por parte de Caiado sinaliza um novo estágio na pré-campanha de 2026. Se antes o ex-governador concentrava suas críticas na falta de experiência executiva do senador, evitando temas sensíveis, agora o confronto se torna mais direto. A estratégia parece acompanhar a percepção, indicada em pesquisas de opinião, de que há espaço para uma alternativa que não carregue o ônus das contestações ao sistema eleitoral e dos desgastes jurídicos da família Bolsonaro. Ao criticar a agenda de Flávio com embaixadores ou o green card de Eduardo Bolsonaro, Caiado oferece ao eleitorado conservador, especialmente ao agronegócio, um nacionalismo de balcão, focado em mercados, não em disputas de legitimidade.
O episódio de terça-feira sugere que a tática de 2022 continua sendo um ativo para o núcleo da família Bolsonaro. A reação de Ronaldo Caiado no dia seguinte sugere que, para outros atores da direita, essa mesma tática é vista como um passivo. A disputa é para definir qual das duas visões prevalecerá na tarefa de enfrentar o presidente Lula.
Beatriz Fonseca — Política nacional — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Caiado critica Flávio Bolsonaro por fala sobre urnas a embaixadores
Fontes: Folha de S.Paulo · CNN Brasil