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A sede é o novo normal

Análise · Clara Verdi O número é de uma secura brutal: desde o ano 2000, a frequência e a duração das secas aumentaram quase 30 por cento.

A sede é o novo normal
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Clara Verdi

O número é de uma secura brutal: desde o ano 2000, a frequência e a duração das secas aumentaram quase 30 por cento. Não é uma estatística para um simpósio de climatologistas, mas o prólogo de um cotidiano que se impõe da Amazônia à Europa, e que agora ganha o palco formal de uma conferência da ONU em Ulaanbaatar, na Mongólia. A diplomacia se reúne para debater a sede, enquanto a terra estala sob os pés de todos. A questão, como formulou Yasmine Fouad, da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação, já não é mais o reconhecimento do risco. É agir antes que a catástrofe se espalhe pelas comunidades, pelas economias, pelas fronteiras.

A urgência, porém, esbarra na própria natureza do problema. A seca não tem a dramaticidade de um furacão ou a imagem televisiva de uma inundação. Ela é um mal lento, silencioso, que se infiltra no solo, estressa a vegetação, compromete a lavoura e só se torna notícia quando a colheita já foi perdida ou a torneira para de jorrar. É a diferença entre a seca meteorológica, a ausência de chuva que os boletins registram, e a seca agrícola, o chão que já não responde, o gado que não tem pasto. Essa última é o que chega à mesa.

A geografia da falta

O mapa da escassez foi reescrito. O Brasil, um país definido pela abundância hídrica em seu imaginário, viu todas as suas cinco regiões registrarem focos de seca em julho de 2026, com 157 municípios em situação severa. Na Europa, a onda de calor prolongada do último mês é apenas o sintoma mais visível de um processo de ressecamento que, como no Brasil, combina a diminuição das chuvas com o aumento da temperatura. Um desequilíbrio persistente entre precipitação e evaporação. A água que evapora não volta. É a nova física da terra.

O que observamos em todo o país é uma tendência de ressecamento.

A projeção para 2050 — três em cada quatro pessoas no mundo afetadas pela seca — tem a frieza dos relatórios técnicos, mas carrega o peso de uma reorganização social inteira. Antes disso, até 2030, a demanda global por água pode superar a oferta em 40%. Esse não é um futuro distante. É um horizonte de seis anos.

Enquanto os delegados se reúnem na Mongólia, a pergunta não é se as soluções concretas virão do encontro. É se elas chegarão a tempo, ou se estamos apenas aprendendo a nomear, com precisão burocrática, o deserto que avança.

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: COP17 debate seca que aumentou 30% desde 2000

Fonte: Agência Brasil