Saúde em São Paulo desenvolve plano contra impactos da emergência climática
A rede de saúde paulista elabora estratégias para enfrentar os desafios de eventos climáticos extremos, como ondas de calor e inundações.
Análise · Dra. Camila Torres
A criança com febre na maca do pronto-socorro. O idoso com a respiração curta, lutando por ar. O paciente renal que não consegue chegar à clínica de diálise porque a rua alagou. Estes não são cenários de um futuro distante, mas o presente antecipado pela Secretaria da Saúde de São Paulo em seu plano de resposta ao El Niño. É um documento que, na prática, traduz a abstração de um oceano Pacífico mais quente para a realidade concreta de um sistema de saúde sob pressão.
O plano não é um exercício de futurologia, mas de epidemiologia aplicada. Reconhece que o aquecimento anormal das águas do Pacífico, classificado como forte pela Noaa e com potencial para se tornar muito forte, não é apenas um evento meteorológico. É um evento de saúde pública. O calor e as chuvas extremas criam o ambiente ideal para a proliferação do vetor da dengue, da chikungunya e da febre amarela. A água que sobe e inunda favorece a leptospirose, a hepatite A e as doenças diarreicas. Menos visível, mas igualmente real, é o agravamento de doenças crônicas — cardiovasculares, renais, respiratórias — em corpos já fragilizados.
O documento tem o mérito de olhar para o sistema de forma integrada. Não se trata apenas de tratar os doentes que chegarão, mas de garantir que o cuidado não seja interrompido para os que já dependem dele. Mapear rotas alternativas para ambulâncias, assegurar o estoque de medicamentos e garantir a continuidade de tratamentos como quimioterapia e oxigenoterapia domiciliar são ações que revelam uma memória institucional. Quem esteve na linha de frente em outras crises sabe que a primeira vítima de um desastre é a rotina.
A declaração de Regiane de Paula, da Coordenadoria de Controle de Doenças, de que os mais afetados "costumam ser sempre as crianças e os idosos", não é uma opinião. É uma constatação estatística. Em qualquer emergência de saúde, os extremos da vida pagam o preço mais alto. Seus sistemas imunológicos são mais vulneráveis, suas reservas fisiológicas, menores. O plano acerta ao nomear essa vulnerabilidade.
Resta saber, contudo, como as diretrizes se traduzirão na ponta, nos 645 municípios com suas realidades tão distintas. Um plano é uma partitura; a execução é a orquestra. A estratégia prevê ações de saúde mental para a população e para os profissionais, um ponto essencial e frequentemente esquecido. Cuidar de quem cuida é condição para a sustentabilidade de qualquer resposta.
O que a iniciativa de São Paulo nos obriga a encarar é que a pauta do clima deixou de ser um domínio exclusivo de ambientalistas e diplomatas. Ela agora é, e será cada vez mais, uma pauta de médicos, enfermeiros e gestores de saúde. Como será o plantão daqui a seis meses?
Dra. Camila Torres — Saúde — chefia. Xaplin.
Leia o factual: SP lança plano de saúde contra El Niño forte
Fontes: Folha de S.Paulo · UOL
Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.