A saúde como um risco a ser cortado
Análise · Dra. Camila Torres Novecentos e cinquenta mil contratos.
Análise · Dra. Camila Torres
Novecentos e cinquenta mil contratos. Um número que, por si, já bastaria para dimensionar a decisão da operadora Hapvida: cancelar o equivalente a 12% de sua carteira de planos de saúde, ou aplicar reajustes de dois dígitos. É um volume de vidas que se aproxima da população inteira de uma capital como João Pessoa. A ação foi suspensa, preventivamente, pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). A questão, porém, permanece. Ela expõe a lógica que rege parte do sistema privado de saúde. A saúde como um risco a ser administrado — e, quando o risco se eleva, a ser cortado.
A linguagem utilizada pelo diretor-presidente da ANS, Wadih Damous, é técnica, mas sua implicação é profundamente humana. Ao mencionar a suspeita de “seleção de risco”, ele nomeia uma prática proibida que assombra o setor: a exclusão de beneficiários que, por idade ou condição de saúde, se tornam mais caros para a operadora. São os pacientes crônicos, os idosos, os que mais precisam do sistema pelo qual pagaram por anos. A medida cautelar da agência, portanto, não é apenas um freio administrativo. É um dique contra o que pode ser uma depuração de carteira em massa.
Minha experiência de uma década no Sistema Único de Saúde me ensinou a ver o fluxo contrário. Vi de perto o que acontece quando a porta do sistema suplementar se fecha. O paciente que perde o plano não desaparece. Ele chega a uma Unidade Básica de Saúde, a uma emergência de hospital público, muitas vezes com tratamentos interrompidos e a saúde agravada pela burocracia e pelo desamparo. O custo não some. Ele é apenas transferido para a sociedade.
O que os esclarecimentos que a Hapvida ainda prestará à ANS poderão revelar é o detalhe técnico da operação. A análise da agência dirá se as medidas se alinham às normas. Contudo, o quadro mais amplo já está pintado. Um modelo de negócio que enxerga quase um milhão de pessoas como um passivo a ser descartado revela uma tensão fundamental. A saúde é um direito ou um produto? O contrato é um pacto de cuidado ou uma apólice de risco que a empresa pode escolher não renovar quando a probabilidade do sinistro aumenta?
A suspensão é um alívio temporário para milhares de famílias. Um fôlego. Mas o que este episódio nos força a perguntar é sobre a natureza do próprio sistema. Quem, afinal, o plano de saúde planeja deixar para trás?
Dra. Camila Torres — Saúde — chefia. Xaplin.
Leia o factual: ANS suspende reajustes e cancelamentos de planos da Hapvida
Fonte: Agência Brasil
Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.