A sala onde se negocia o futuro
Análise · Rafael Tokyo Dois adversários se sentam à mesa.
Análise · Rafael Tokyo
Dois adversários se sentam à mesa. Um não confia no outro, mas ambos desconfiam de um terceiro elemento, uma criação que partilham e que escapa ao seu controle. O encontro entre negociadores americanos e chineses em setembro para discutir os riscos da inteligência artificial não é um armistício na guerra tecnológica. É o reconhecimento de que o tabuleiro mudou. A peça mais poderosa já não responde a quem a move.
O palco da geopolítica global se acostumou a uma gramática de rivalidade. Sanções econômicas, disputas militares no Mar do Sul da China, a corrida por semicondutores. São movimentos conhecidos, tensos, mas previsíveis. A conversa sobre a IA, no entanto, introduz um novo vocabulário, um baseado não na competição, mas no medo mútuo. O medo de que modelos de linguagem cada vez mais autônomos possam reescrever as regras de ciberataques, desestabilizar mercados de trabalho ou, no limite, fortalecer capacidades militares de maneiras que nem seus criadores antecipam.
A escolha do Secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, para liderar a delegação americana é um sinal. A preocupação imediata parece ser menos o *skynet* da ficção e mais a perturbação de sistemas palpáveis: infraestrutura crítica, mercados financeiros, cadeias de produção. A lógica é a da contenção de danos. Antes de discutir o que a IA *pode ser*, é preciso regular o que ela *já pode fazer*.
Do lado chinês, a posição é pragmática. A declaração recente de Xi Jinping, de que a IA não deve ser dominada por um único país, é menos um chamado à cooperação global e mais um lance estratégico. Pequim quer um assento na sala onde as normas serão escritas, garantindo que as regras não sirvam apenas para conter seu avanço. É um diálogo sobre limites, mas cada lado quer desenhar a linha no território do outro.
Essa negociação é frágil, um encontro em terreno instável. Agenda, local e participantes ainda flutuam, reflexo da desconfiança que estrutura a relação. Mas o simples fato de a conversa existir é o fato em si. Demonstra que, para ambas as potências, o maior risco já não é o avanço do rival. É o avanço desgovernado da própria tecnologia que elas disputam. Uma corrida armamentista onde a arma pode, a qualquer momento, decidir correr sozinha.
— Rafael Tokyo, Ásia
Rafael Tokyo — Ásia. Xaplin.
Leia o factual: EUA e China negociarão riscos da IA em setembro
Fontes: Folha de S.Paulo · CNN Brasil