A rainha e as meninas no chão do Castelinho
Análise · Marcos Tibúrcio Bárbara Galvão tem 23 anos. Aos 23, uma ginasta já carrega o peso de uma veterana, e Bárbara carrega o de uma embaixadora.
Análise · Marcos Tibúrcio
Bárbara Galvão tem 23 anos. Aos 23, uma ginasta já carrega o peso de uma veterana, e Bárbara carrega o de uma embaixadora. Tricampeã pan-americana, finalista de Mundial, medalhista em Copa do Mundo. A moça de Escada, Pernambuco, está em São Luís para um torneio regional, o que à primeira vista soa como um rei visitando o pátio de uma província. Mas o que se vê no Ginásio Castelinho, desde quarta-feira, não é protocolo. É outra coisa.
É o abismo e a ponte. De um lado do tablado, a atleta do ciclo olímpico de 2028, a figura cujo nome ecoa nos alto-falantes e cujo corpo executa movimentos que parecem desafiar a física que rege os mortais comuns. Do outro, 402 meninas. Meninas do Pré-Infantil ao Adulto, vindas de todos os nove estados do Nordeste, para quem o Torneio Nacional é o sonho imediato e Bárbara Galvão é o sonho distante, encarnado ali, a poucos metros.
Um ginásio de esportes, nesses dias, deixa de ser só cimento e arquibancada. Vira uma catedral silenciosa e um mercado barulhento, tudo ao mesmo tempo. Há o silêncio tenso que precede a música, a respiração presa dos pais e dos técnicos, o ruído seco do aparelho caindo no chão — o som universal do erro. E há o burburinho, a troca, o encontro. A menina de um clube do Maranhão que vê de perto o movimento que só conhecia pela tela do celular, executado pela atleta da Seleção Brasileira.
A presença de uma ginasta desse calibre num torneio de base serve a um propósito que nenhuma planilha da confederação consegue medir. Não se trata apenas de inspirar, palavra gasta de tanto uso. Trata-se de tornar o impossível palpável. Uma menina de Escada chegou lá. Logo, uma menina de São Luís, de Teresina, de João Pessoa, também pode. A dúvida, claro, é se o brilho de uma estrela solitária é capaz de iluminar um sistema inteiro ou se apenas acentua a escuridão ao redor. O tempo dirá.
Por ora, no Castelinho, o que se tem é a imagem poderosa: uma mulher no auge da sua força e centenas de meninas no início de tudo. Bárbara está ali para competir, mas sua função maior parece ser outra. Ela é o espelho onde 402 futuros se projetam. A rainha e sua corte de pretendentes, todas disputando um lugar no mesmo chão duro. O que nasce desse encontro, quando as luzes do ginásio se apagarem no sábado?
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge