A promessa e o peso do Maracanã
Análise · Marcos Tibúrcio O dirigente, em evento no Piauí, fala em título.
Análise · Marcos Tibúrcio
O dirigente, em evento no Piauí, fala em título. Samir Xaud, presidente da CBF, cravou a ambição de peito estufado: o Brasil tem “grandes chances” de levantar sua primeira Copa do Mundo Feminina em 2027, e de fazê-lo em casa. A cartilha do otimismo oficial incluiu a promessa da “melhor Copa” e a certeza de que a seleção hoje joga “de igual para igual” com as potências da Europa. A confiança de um homem de gravata é uma coisa. O silêncio de um estádio é outra.
A final está marcada para o Maracanã. E o Maracanã não esquece.
Dizer que a seleção feminina alcançou o nível das europeias é, antes de tudo, ignorar o abismo que ainda nos separa delas no dia a dia. É ignorar a diferença entre um amistoso bem jogado e a pressão de uma semifinal de Copa. As vitórias pontuais, citadas por Xaud, são alento, não atestado. Elas mostram que o talento existe, bruto e teimoso, mas não apagam décadas de um jogo desenvolvido com um método e um dinheiro que aqui apenas engatinham.
O futebol não se ganha no discurso. A promessa de investimento soa bem no microfone, mas o que vale é a bola rolando em estádios cheios, com campeonatos fortes, desde a base. A Copa em casa pode ser o motor para isso, sem dúvida. Ou pode ser apenas uma festa de um mês, que deixa para trás elefantes brancos e uma nova geração de meninas sem campo para jogar. O legado é uma palavra bonita que a história costuma tratar com certa ironia.
A força da declaração presidencial está, portanto, no peso que ela deposita sobre os ombros de Arthur Elias e de suas jogadoras. É o peso de uma dívida histórica, de uma chance que talvez não se repita. É a obrigação de transformar a esperança de um povo, que aprenderá a cantar os nomes das atletas, em algo palpável. Em glória. No gramado do Maracanã, em 25 de julho de 2027, não haverá planilhas de investimento nem discursos sobre paridade com a Europa. Haverá onze de amarelo contra onze de outra cor. E a memória de outras finais.
Conseguirão elas carregar o fardo que os homens, por duas vezes, deixaram cair no mesmo palco?
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge