A prata que não reluz, mas pesa
Análise · Marcos Tibúrcio Há derrotas e derrotas. Umas são apenas placares, números frios na súmula que o tempo amarela e esquece. Outras, não.
Análise · Marcos Tibúrcio
Há derrotas e derrotas. Umas são apenas placares, números frios na súmula que o tempo amarela e esquece. Outras, não. Outras têm o peso do bronze olímpico que se foi, do ouro que escorreu entre os dedos, da repetição que martela na alma. O vice-campeonato do Brasil na Liga das Nações, em Macau, é dessas que se levam para casa — e que não se penduram na parede.
Começou como se fosse a nossa noite. O primeiro set, vencido, teve o som de uma promessa sendo cumprida. Era a reedição da disputa pelo bronze de Paris, mas agora valia o mundo. E por vinte e cinco pontos, o mundo pareceu nosso. Ana Cristina, com a juventude que desconhece o peso da camisa, atacava. Rosamaria, com a resiliência de quem já viu de tudo, defendia. Havia ordem, havia fúria, havia Brasil em quadra.
Mas do outro lado da rede havia Melissa Vargas. Não se trata de uma jogadora de vôlei. Trata-se de um acontecimento. Uma cubana que a Turquia adotou como arma, e que usa o uniforme vermelho como quem veste uma armadura. Cada um dos seus 33 pontos no domingo foi um golpe na nossa certeza, um prego no caixão da nossa esperança. Vargas não joga; ela sentencia. E a sentença, lenta e cruel, se cumpriu em três sets.
A ausência que grita
José Roberto Guimarães, o patriarca de três ouros olímpicos, falou em “adversidades”. É o eufemismo do técnico para o que a quadra sentia: os fantasmas das que não estavam. Uma seleção sem Gabi é um time sem seu norte. Sem Tainara, Julia Kudiess, Nyeme, é um exército que vai à batalha com a infantaria desfalcada. As que ficaram lutaram. Entregaram suor e alma. Mas há ausências que nem a alma mais valente consegue preencher.
É o quinto vice-campeonato. A prata, em vez de enfeitar, começa a arranhar. Não é um acidente de percurso; é um endereço. Desde 2017 que uma competição deste porte não termina com o hino brasileiro. Fica o talento, fica a luta, fica a renovação com meninas que serão gigantes. Mas fica, sobretudo, a pergunta que ecoa de Macau até o Maracanãzinho, onde será o Sul-Americano: o que nos falta para que a última bola caia do lado de lá?
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Brasil é vice-campeão da Liga das Nações de Vôlei Feminino
Fontes: Agência Brasil · ge