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A praça pública como patíbulo

Análise · Clara Verdi Há gestos de um Estado que não se destinam a fazer justiça, mas a produzir uma imagem. Uma imagem que aniquile qualquer outra.

A praça pública como patíbulo
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Clara Verdi

Há gestos de um Estado que não se destinam a fazer justiça, mas a produzir uma imagem. Uma imagem que aniquile qualquer outra. A execução de Abolfazl Sepahi-Badjani e Amirhossein Safari-Hosseinabadi na Praça Alikhani, em Isfahan, é um desses gestos. O comunicado oficial, seco como os desertos que cercam a cidade, acusa-os pela morte de quatro agentes de segurança durante os protestos de janeiro. Mas o lugar da execução — a mesma praça do suposto crime, “na presença de um grupo de pessoas”, como informa a agência Mehr — revela a verdadeira natureza do ato: não se trata de punição, mas de espetáculo. É a pedagogia do terror encenada à luz do dia.

O poder não se contenta em matar em segredo; ele precisa exibir os corpos para disciplinar os vivos. A República Islâmica, engajada numa guerra que define como existencial, transforma seu front interno num teatro de operações tão ou mais brutal que o Estreito de Ormuz. A repressão aos protestos de janeiro, descrita como a maior da sua história, não terminou com os milhares de mortos nas ruas. Ela continua, meticulosa e fria, nos tribunais fechados e nos patíbulos improvisados. Os nomes de Sepahi-Badjani e Safari-Hosseinabadi se somam a uma lista que, segundo a ONU, já contava com ao menos outras 24 vítimas da mesma fúria judicial. O processo que os condenou, junto a outros dez réus em uma única audiência, sem individualização da culpa, não é um desvio da norma; é a norma de um sistema que abdicou da justiça em favor da ordem.

A praça, historicamente o lugar do povo, da polis, da manifestação e da revolta, é pervertida em seu oposto: o palco onde o poder soberano demonstra sua capacidade ilimitada de tirar a vida. A execução pública não busca o consentimento, busca a paralisia. Ela diz, a quem ousa assistir, que o mesmo destino aguarda qualquer um que confunda a rua com um espaço de liberdade. O que Teerã faz na Praça Alikhani é uma lição sombria sobre a natureza do poder quando este se sente encurralado: ele não dialoga, não concede. Ele mata em público para ensinar a morrer em silêncio.

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Irã executa dois homens por protestos de janeiro

Fontes: g1 · CNN Brasil