A porta fechada para o HIV
Análise · Dra. Camila Torres O corpo humano é um território. Como todo território, tem fronteiras e portos de entrada.
Análise · Dra. Camila Torres
O corpo humano é um território. Como todo território, tem fronteiras e portos de entrada. Para o vírus da imunodeficiência humana (HIV), a principal porta de acesso às nossas células de defesa, os linfócitos T CD4+, chama-se CCR5. É um correceptor na superfície da célula; sem se acoplar a ele, o vírus não consegue entrar para iniciar seu ciclo de replicação e devastar o sistema imune. A medicina, por décadas, tem se concentrado em combater o vírus depois que ele já está dentro, usando antirretrovirais para sabotar seu maquinário.
Agora, a notícia de dois novos pacientes em remissão, apresentada na Conferência Internacional da Aids no Rio de Janeiro, reforça uma estratégia radicalmente diferente: não combater o invasor, mas trancar a porta. Os pacientes — um de Kansas City, outro de Essen — tinham, além do HIV, cânceres hematológicos que exigiam um tratamento extremo: um transplante de células-tronco para reconstruir por completo seus sistemas imunes. O detalhe crucial está na origem dessas novas células. Elas vieram de doadores com uma rara mutação genética, a CCR5 delta32, que produz uma versão defeituosa daquele correceptor. Uma fechadura na qual a chave do HIV não encaixa.
Uma prova de conceito, não uma cura universal
O resultado é de uma elegância biológica notável. Ao receberem um novo sistema imune, agora composto por células naturalmente resistentes ao vírus, os pacientes puderam suspender a terapia antirretroviral. Meses depois, o vírus permanece indetectável em seu sangue. Com eles, somam-se treze casos no mundo que alcançaram a remissão por essa via. Cada caso é uma prova de conceito robusta: se o HIV não pode entrar na célula, a infecção não se sustenta.
Aqui, a cautela se impõe. Um transplante de células-tronco é um procedimento de altíssimo risco, com mortalidade considerável, reservado a pacientes com doenças gravíssimas como a leucemia mieloide aguda de um dos casos. É uma solução que nasce de uma dupla tragédia. Não é, nem de longe, uma terapia escalável para as dezenas de milhões de pessoas que vivem com HIV no mundo e o controlam bem com medicamentos. A importância desses treze pacientes não está no método, mas na lição que ele ensina. Eles nos mostram que a remissão duradoura, talvez a cura funcional, é biologicamente possível. O desafio, agora, é encontrar uma forma segura de trancar a porta do CCR5 para todos.
Dra. Camila Torres — Saúde — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Dois novos casos de remissão do HIV são relatados em conferência
Fonte: Agência Brasil
Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.