A pílula amarga do America First
Análise · Clara Verdi O gesto de Donald Trump não é um mero ato de governo, mas uma peça de teatro protecionista encenada no palco mais frágil…
Análise · Clara Verdi
O gesto de Donald Trump não é um mero ato de governo, mas uma peça de teatro protecionista encenada no palco mais frágil de todos: o da saúde. Ao anunciar uma tarifa de 100% sobre medicamentos genéricos importados a partir de 2028, ele não está apenas redesenhando cadeias de suprimento; está calibrando a dor, transformando o acesso a um remédio em um ato de lealdade nacional. A lógica, escrita em maiúsculas na sua própria rede social, é de uma brutalidade cartesiana: REPATRIAR a produção farmacêutica, com uma penalidade para os insubordinados que não construírem suas fábricas em solo americano a tempo.
A política não nasceu do nada. É a continuação de uma ofensiva que já havia mirado os medicamentos de marca, mas que agora se volta para a base da pirâmide farmacêutica. Os genéricos, que compõem 90% das receitas médicas nos Estados Unidos, são a medicina do cotidiano, o analgésico e o anti-hipertensivo na prateleira de milhões de pessoas. São, até aqui, um produto globalizado, com cerca de 70% de sua matéria-prima vinda de fora. O que Trump propõe é uma espécie de desmame forçado, um ultimato com data marcada, disfarçado de política industrial.
Uma arma apontada para si mesmo
A estratégia repete um roteiro já conhecido com as grandes farmacêuticas. Pfizer, AstraZeneca e outras gigantes já negociaram com a Casa Branca para escapar de tarifas sobre seus produtos patenteados, prometendo investimentos e preços mais baixos em troca de clemência fiscal. Foi um jogo de poder entre titãs. Agora, a mira desce para o vasto e anônimo mercado dos genéricos, e a escala da perturbação é outra. O período de isenção de dois anos, antes da tarifa escalar para 100% e depois 200%, não é uma gentileza, mas o tique-taque de uma bomba relógio entregue à indústria. Um convite irrecusável: venham, ou paguem o preço.
A questão que resta, suspensa sobre os balcões das farmácias americanas, não é se a produção voltará, mas a que custo. A política industrial por decreto ignora a complexidade de um setor que levou décadas para se globalizar. Ameaçar encarecer o remédio mais acessível em nome de um nacionalismo fabril é apontar uma arma para a cabeça do próprio eleitor, esperando que os alvos da chantagem — as empresas — cedam antes que seja preciso puxar o gatilho.
Clara Verdi
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: Trump anuncia tarifa de 100% sobre remédios genéricos a partir de 2028
Fontes: Folha de S.Paulo · CNN Brasil
Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.