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A paz de Trump, o silêncio de Gaza

Análise · Clara Verdi A História, quando anunciada com a fanfarra de uma rede social, raramente se parece com a História que depois se escreve.

A paz de Trump, o silêncio de Gaza
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Clara Verdi

A História, quando anunciada com a fanfarra de uma rede social, raramente se parece com a História que depois se escreve. Donald Trump, nesta quinta-feira, proclamou um acordo “histórico” para o desarmamento de Gaza. O texto da proclamação é simples, quase publicitário: as facções palestinas entregam as armas, as tropas israelenses se retiram, uma força internacional garante a ordem. A paz como um produto de prateleira, montado em fases, mediado por Egito, Catar e Turquia — atores que costuram com a agulha de seus próprios interesses o tecido esgarçado do Levante.

A palavra-chave, no léxico de Trump, é “completo”. Desarmamento completo, desmilitarização plena. É uma palavra de ressonância absoluta, que não admite meios-tons, e talvez por isso mesmo soe tão dissonante no contexto. Ela ignora, por método, que um acordo não é um decreto, mas uma negociação frágil entre silêncios e desconfianças. Enquanto o presidente americano celebrava seu tratado, fontes israelenses diziam à agência AFP que a proposta não satisfazia suas exigências; do outro lado, o Hamas confirmava que ainda negociava mudanças.

O verbo e o fato

O que se vê não é a assinatura de um tratado, mas o espetáculo da sua anunciação. Uma performance política cujo palco principal não é Gaza, mas a própria América. A paz de 2025, que encerrou dois anos de guerra, precisava de um ato final grandioso, e o desarmamento do inimigo oferece a imagem perfeita. Uma imagem que, no entanto, ainda não encontra correspondência no terreno. A exigência israelense de desmilitarização *prévia* a qualquer processo e a resistência do Hamas em negociar os termos revelam a distância que separa a retórica da realidade.

O acordo de Trump parece existir mais potentemente em seu próprio enunciado do que na concordância de seus signatários. É uma paz declarada de forma unilateral, antes que os beligerantes tenham deposto, de fato, não apenas as armas, mas a própria lógica do conflito. E enquanto a diplomacia de megafone celebra o fim de uma era, em Gaza — onde um ataque aéreo atingiu uma mesquita dias atrás — o que se ouve não é o som da paz, mas o ruído de fundo da negociação, que é sempre o som de uma guerra que se recusa a terminar por decreto.

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Trump anuncia acordo para desarmamento do Hamas em Gaza

Fontes: g1 · UOL