A nova fronteira e o velho dilema
Análise · Ricardo Mendes A cem quilômetros da costa, um navio-sonda encontra o que procura.
Análise · Ricardo Mendes
A cem quilômetros da costa, um navio-sonda encontra o que procura. O anúncio da Petrobras sobre a descoberta de indícios de petróleo no poço de Morpho, na bacia da Foz do Amazonas, não é um fato consumado, mas um vetor. A empresa celebra a confirmação de seu "otimismo", nas palavras de sua presidente, Magda Chambriard. O governo endossa. O dilema, no entanto, permanece tão profundo quanto as águas onde a perfuração ocorreu.
A prospecção — a fase de pesquisa, que antecede qualquer extração comercial — é o primeiro passo de uma longa jornada econômica. Confirmar a existência de petróleo não garante sua viabilidade comercial. O custo de extração em águas ultraprofundas, a logística de escoamento e a qualidade do óleo encontrado são variáveis que decidirão se a chamada Margem Equatorial será, de fato, a "provável nova fronteira energética do Brasil", como aposta a estatal.
O custo da transição, o preço da espera
O argumento do governo, vocalizado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, é pragmático: nenhum país tem hoje as condições para uma transição energética que abdique por completo dos combustíveis fósseis. A demanda por energia é crescente e precisa ser atendida. Sob essa ótica, explorar recursos domésticos é uma questão de soberania e segurança energética, financiando, inclusive, a própria transição para uma matriz mais limpa no futuro.
Essa lógica, contudo, opera em colisão direta com outra realidade. A autorização para a pesquisa na região, emitida pelo Ibama às vésperas da COP30 em Belém, expõe a contradição de um país que sedia a principal conferência climática do mundo enquanto aprofunda a aposta em uma fonte de energia fóssil. A exploração em uma área de sensibilidade ecológica desconhecida e o impacto sobre comunidades indígenas e quilombolas, como relatado pela líder Luene Karipuna, não são externalidades. São custos diretos, ainda que difíceis de precificar.
Somos excluídos como se não existíssemos. Há sobrevoos sobre nosso território, pressão constante.
A descoberta em Morpho, portanto, força uma escolha. Ela não é entre petróleo e meio ambiente, uma simplificação que raramente ajuda a formular boa política pública. A decisão é sobre alocação de capital e tempo. O investimento bilionário exigido para transformar uma descoberta geológica em barris produzidos é um recurso que deixa de ser alocado em outras frentes. O Brasil do pré-sal já viveu esse ciclo de euforia, investimento e posterior ajuste a uma nova realidade de preços e demandas globais.
Aquele otimismo se justificou. Mas o mundo mudou. O que se pergunta agora, enquanto os dados do poço Morpho são analisados, não é apenas se há petróleo ali. É se o Brasil de 2040 precisará dele tanto quanto o Brasil de 2010.
Ricardo Mendes — Economia — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Petrobras acha petróleo na Foz do Amazonas e segue buscas
Fontes: g1 · BBC News Brasil