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SAMU implementa nova ampola para tratamento de emergência

Dra. Camila Torres analisa a implementação de nova ampola pelo SAMU, focando na importância do tempo em emergências cardiológicas.

SAMU implementa nova ampola para tratamento de emergência
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Dra. Camila Torres

Na cardiologia, existe uma máxima: tempo é músculo. Para cada minuto que uma artéria coronária permanece ocluída durante um infarto, uma porção do coração morre. Na neurologia, a frase é análoga: tempo é cérebro. Uma portaria que amplia o acesso a medicamentos trombolíticos nas ambulâncias do SAMU e nas UPAs do país parece, portanto, um avanço inequívoco. É uma aposta na ponta. Um reconhecimento de que a medicina de alta complexidade começa muito antes da porta do hospital.

Os trombolíticos, como o nome sugere, dissolvem trombos — os coágulos que entopem artérias e causam o infarto agudo do miocárdio (IAM) e o acidente vascular cerebral (AVC) isquêmico. Eles não são a solução definitiva. Em muitos casos de infarto, o padrão-ouro é a angioplastia, procedimento que desobstrui mecanicamente o vaso. Mas a angioplastia exige um centro de hemodinâmica, equipe especializada e uma estrutura que não existe em toda cidade. O trombolítico, por sua vez, é uma ampola. Pode ser administrado por um médico treinado dentro de uma ambulância, enquanto o paciente é transportado para o hospital de referência.

A distância entre a lei e a maca

A Lei nº 5.972/2023 formaliza algo que protocolos do próprio Ministério da Saúde já previam, mas deixavam a cargo do gestor local. A intenção é padronizar a oferta. A lógica é impecável, mas a execução no Brasil real é uma prova de obstáculos. A experiência de uma década no SUS ensina que uma política de saúde não se mede pela portaria que a cria, mas pela sua capilaridade. A ampola de alteplase (um trombolítico) precisa chegar a uma UPA no interior da Amazônia com a mesma regularidade que chega a uma unidade na Avenida Paulista. E não basta o remédio.

A aplicação de um trombolítico exige diagnóstico rápido e preciso. Um eletrocardiograma bem interpretado na ambulância, uma avaliação neurológica que descarte um AVC hemorrágico — condição na qual o medicamento é fatal. Isso demanda treinamento contínuo das equipes do SAMU e das UPAs. Exige também um sistema de comunicação azeitado entre a ambulância, a central de regulação e o hospital que receberá o paciente. A lei, por si, não cria essa engrenagem. Ela fornece uma peça importante, mas o motor ainda depende de gestão, logística e capacitação.

A decisão de criar um comitê para acompanhar a implementação é um sinal de que o Ministério da Saúde conhece o tamanho do desafio. A medida pode, de fato, salvar tecido cardíaco e cerebral em um país de dimensões continentais, onde a distância para o hospital certo se mede em horas, não em minutos. Mas a eficácia desta política será decidida não em Brasília, mas na madrugada de um plantão, dentro de uma ambulância, diante de um peito que dói.

Será que a rede que recebe este paciente estará pronta para dar continuidade ao cuidado? Essa é a pergunta que a nova lei ainda não responde.

Dra. Camila Torres — Saúde — chefia. Xaplin.

Leia o factual: SUS passa a dar remédio para infarto e AVC em UPAs e no Samu

Fonte: Agência Brasil

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.