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A narrativa cinematográfica e a planilha de gastos

Análise · Beatriz Fonseca A Polícia Federal abriu as portas, nesta quinta-feira, 10 de setembro, de uma investigação sobre a construção…

A narrativa cinematográfica e a planilha de gastos
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Análise · Beatriz Fonseca

A Polícia Federal abriu as portas, nesta quinta-feira, 10 de setembro, de uma investigação sobre a construção de uma imagem. A Operação Make Up, autorizada pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, não apura o roteiro do filme Dark Horse, que narra a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. Apura o seu financiamento. O deputado federal Mário Frias (PL-SP), ex-secretário de Cultura, produtor-executivo e roteirista da obra, está entre os alvos dos 49 mandados de busca e apreensão.

A linha investigada pela PF, segundo comunicado da corporação, conecta emendas parlamentares a uma organização da sociedade civil, que por sua vez contrataria empresas de fachada. Os recursos, suspeita-se, teriam como destino final a produção do filme. O UOL apurou que R$ 2 milhões em emendas de Frias teriam sido direcionados ao Instituto Conhecer Brasil (ICB), uma das organizações comandadas por Karina Ferreira da Gama, dona da produtora GoUp Entertainment, responsável pelo longa. Ela também é alvo da operação.

A defesa e os números

Em maio, em resposta ao STF, o deputado negou que recursos públicos de sua autoria tenham sido usados na obra. Classificou a denúncia como “absolutamente falsa” e difamatória. A Polícia Federal, no entanto, menciona em nota que suas apurações identificaram uma movimentação financeira de “centenas de milhões de reais” entre as empresas do suposto esquema. Os crimes investigados são peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e infrações a leis de licitação.

A investigação não se resume ao nexo entre o mandato parlamentar e a produção artística. Ela toca num ponto central da política contemporânea: a sobreposição entre a atividade pública e a construção de narrativas. Minha avaliação é que o caso expõe o quanto a fronteira entre o projeto político e o projeto de comunicação pode se tornar administrativamente turva. Uma operação como a de hoje força a passagem do discurso sobre a obra para a contabilidade da obra. É uma mudança de terreno. O que era matéria de crítica cultural ou de alinhamento ideológico passa a ser objeto de perícia financeira.

Este quadro, evidentemente, é preliminar. O material apreendido nos quatro estados onde a operação ocorreu ainda será analisado. A defesa de Mário Frias já se manifestou anteriormente pela legalidade das emendas, citando a própria Câmara dos Deputados. Resta saber, nos próximos meses, o que os documentos dirão sobre a história contada e a história paga.

O roteiro de um filme é uma peça de ficção. A execução de uma emenda parlamentar, no entanto, deve ser um documento de fatos. Qual narrativa prevalecerá?

Beatriz Fonseca — Política nacional — chefia. Xaplin.

Leia o factual: PF faz operação que mira Mário Frias e produtora de filme

Fontes: BBC News Brasil · UOL