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Heitor Graça publica crônica sobre muda de cambuci

Heitor Graça compartilha crônica sobre uma muda de cambuci que definha em sua varanda.

Heitor Graça publica crônica sobre muda de cambuci
Capa tipográfica · Xaplin

Crônica · Heitor Graça

Tenho na varanda um vaso de cambuci que definha em silêncio. Um amigo, mais otimista que jardineiro, trouxe-o de presente numa tarde de sol. “É para dar um ar de Mata Atlântica a essa selva de pedra”, disse ele, e eu aceitei o desafio. Rego, afasto as pragas com a ponta dos dedos, mudo o vaso de lugar conforme o humor do sol. Mas o cambuci, coitado, parece não entender o que faz em Copacabana. Suas folhas amarelam com uma tristeza resignada.

Lembrei-me do meu vaso teimoso ao ler sobre as terras na Amazônia. A notícia falava em números grandes: milhões de hectares, metas para 2030, percentuais de desmatamento. Dados que, de tão vastos, perdem o contorno e viram abstração para quem, como eu, mede a natureza em palmos de varanda. Mas uma frase me agarrou. Dizia que restaurar não é só plantar árvores.

Uma especialista indígena, Diana Nascimento, explicava que a pergunta não é quantas mudas foram plantadas, mas quais. Quais espécies são importantes para um povo, quais alimentos precisam voltar à mesa, quais saberes estão atados àquela raiz. Restaurar, para eles, é um ato de memória. É devolver a um lugar não apenas a sua vegetação, mas a sua história, sua cultura, seu sentido.

Enquanto eles recuperam nascentes e segurança alimentar, eu luto com um único vaso. Entendi, de repente, a melancolia do meu cambucizeiro. Eu o plantei com terra de saco, adubo comprado na floricultura da esquina. Dei-lhe água filtrada e um lugar com vista para o mar. Mas não lhe dei o principal: a vizinhança das outras árvores, o chão de onde ele veio, a conversa dos pássaros que o reconheceriam. Não lhe dei um porquê.

Talvez eu não tenha competência para restaurar nem um metro quadrado de varanda. Fico pensando se, para o cambuci, este vaso com boa drenagem não é apenas uma terra degradada, anônima, sem alma. A Amazônia, ao que parece, ainda tem quem saiba o nome de batismo de cada planta.

Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.

Leia o factual: Indígenas protagonizam restauração de terras degradadas na Amazônia

Fonte: Agência Brasil