A metástase do crime no sistema de saúde
Análise · Dra. Camila Torres O nome da operação policial — Metástase — é de uma precisão cruel.
Análise · Dra. Camila Torres
O nome da operação policial — Metástase — é de uma precisão cruel. A doença que se espalha pelo corpo, encontrando novos tecidos para se alojar e corromper, é uma metáfora exata para a organização criminosa desarticulada no Rio de Janeiro. O alvo primário não era um órgão, mas a própria esperança encapsulada em ampolas e comprimidos: medicamentos oncológicos e imunossupressores, fármacos de alto custo que representam, para muitos, a fronteira entre a vida e a finitude.
O esquema revelado pela polícia civil vai muito além do roubo de cargas, um crime que já assola a logística brasileira. Ele descreve um ecossistema paralelo e doentio, com uma estrutura celular complexa: um núcleo roubava, outro armazenava e fracionava a carga, e um terceiro, com verniz de legalidade, reinseria os produtos no mercado. O elo final, e talvez o mais perverso, era a venda para instituições públicas de saúde por meio de licitações. O remédio roubado na estrada voltava a ser comprado pelo Estado, com dinheiro público, para tratar o cidadão.
A violência do assalto na estrada é apenas o primeiro ato. A quebra da cadeia de custódia desses medicamentos é uma agressão silenciosa e de consequências imprevisíveis. Fármacos oncológicos e imunossupressores são moléculas sensíveis, que exigem controle rigoroso de temperatura, umidade e luminosidade. Um frasco armazenado num galpão improvisado no Complexo da Maré, sob o domínio de uma facção criminosa, pode ter sua eficácia comprometida. O paciente que recebe essa medicação pode estar, sem saber, recebendo um placebo caro, uma promessa terapêutica vazia. A falha no tratamento não será atribuída ao armazenamento inadequado, mas à agressividade da doença ou à resistência do organismo.
É uma violação múltipla. Viola-se o patrimônio, com prejuízos que ultrapassam R$ 33 milhões em um ano. Viola-se a integridade do sistema público de saúde, infiltrado por empresas de fachada que vencem licitações. E, de forma mais grave, viola-se o corpo do paciente. Em um tratamento onde cada dia e cada dose importam, a dúvida sobre a procedência de um medicamento é, em si, um fator de angústia e um risco clínico incalculável. A operação policial estanca uma hemorragia, mas o diagnóstico do sistema permanece delicado. A metástase, afinal, avança quando encontra um organismo vulnerável.
Dra. Camila Torres — Saúde — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Polícia deflagra operação contra roubo de remédios oncológicos
Fonte: Agência Brasil
Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.