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Heitor Graça reflete sobre custo da paz na sociedade

Heitor Graça examina a complexidade de manter a paz social, conectando notícias atuais a memórias afetivas da infância e figuras marcantes.

Heitor Graça reflete sobre custo da paz na sociedade
Capa tipográfica · Xaplin

Crônica · Heitor Graça

Abri o jornal hoje e a primeira coisa que me veio à mente foi o Seu Olavo, dono da padaria onde eu comprava pão na infância, lá em Vila Isabel. Ele tinha um calendário de parede, daqueles com santinhos e fases da lua, e ao lado uma caderneta preta de capa dura, onde anotava fiado. O caderno era um ato de fé. Fim do mês, sempre tinha um ou outro que esquecia a dívida. Seu Olavo suspirava, riscava o nome e dizia que era o custo de manter a porta aberta.

Li a notícia sobre os policiais de Belford Roxo e me lembrei da caderneta. Três homens da lei, fardados e armados pelo Estado, cobrando uma taxa de proteção. Um deles, segundo a promotoria, recebia cinquenta reais de uma clínica para garantir que a viatura passasse por ali com mais frequência, que atendesse ao chamado com alguma pressa. Cinquenta reais.

Não sei o que é mais desolador. Se a extorsão em si, que já virou paisagem, ou a modéstia do valor. Cinquenta reais para comprar um pedaço de serviço público, uma fatia de tranquilidade. O dono da clínica, imagino eu, não pagava por luxo, mas por um mínimo de normalidade. Era o seu jeito de manter a porta aberta, uma versão atualizada e muito mais triste da caderneta do Seu Olavo.

Os próprios policiais, dizem os papéis, chamavam os comerciantes de “padrinhos”. A palavra tem um peso que afunda a gente. Padrinho é quem protege, quem ampara. Na Baixada, virou sinônimo de cliente. O apadrinhado paga uma mensalidade pela paz, ou pela ilusão dela. A gente pode supor que o comerciante que se recusa a pagar não vira inimigo; vira só um cidadão comum, entregue à sorte.

Da minha varanda, vejo a viatura que passa toda noite na mesma hora, sem que ninguém precise pagar por fora. É um conforto que a gente nem nota mais. Um privilégio silencioso. Fico pensando no dono daquela clínica, em Belford Roxo, olhando o troco do caixa e separando a nota de cinquenta. Quanto custa, afinal, o direito de apenas existir sem medo até o fim do expediente?

Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.

Leia o factual: PMs são denunciados por cobrar policiamento privado em Belford Roxo

Fontes: Agência Brasil · CNN Brasil

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