A mão que não se solta
Crônica · Heitor Graça Há um gesto que as câmeras de segurança não sabem filmar direito. Filmam o antes, o durante, o depois.
Crônica · Heitor Graça
Há um gesto que as câmeras de segurança não sabem filmar direito. Filmam o antes, o durante, o depois. Registram a moto que passa, a moto que volta, o corpo que tomba. Filmam até o som ausente do disparo, que a gente preenche por conta própria com o pânico que já mora em nós. Mas não sabem filmar o que acontece na mão de um menino de dez anos um segundo antes de tudo.
A mãe, Natália, ajeitava a própria moto. O filho, ao lado. Imagino a conversa fiada, a recomendação de sempre: segura firme, meu filho. A mão pequena talvez estivesse no guidão, aprendendo o peso da máquina, ou na cintura da mãe, o lugar mais seguro do mundo. Por um instante, naquela travessa do Capão Redondo, o asfalto, a casa do tio, a tarde de quinta-feira, tudo era apenas cenário para aquele toque de mão, para aquela cumplicidade de quem está prestes a sair para algum lugar comum.
Depois, a outra moto, a volta, o gesto que desfaz o mundo. O corpo de Natália no chão. E o menino, que um segundo antes tinha um porto seguro na cintura da mãe, agora tem o mundo inteiro nos ombros. As imagens mostram o seu desespero, o grito mudo que a gente consegue ouvir mesmo sem som. É um desespero que não pede só socorro médico; pede que devolvam a ordem das coisas. Pede de volta a mão na cintura, a promessa do passeio, a certeza de que a mãe sempre se levanta.
Os helicópteros chegam, a polícia anota os fatos. Para o boletim, é uma tentativa de roubo no 47º Distrito Policial. Para a cidade, mais um número. Para os vizinhos que correram para ajudar, é Natália. Mas para o menino, é a mão que ficou solta no ar, procurando um lugar para pousar de novo.
Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.
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Fontes: g1 · Folha de S.Paulo